O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira, 25 de agosto, trouxe finalmente uma queda mais consistente nas expectativas de inflação — algo que não havia ocorrido ao longo de todo o primeiro semestre. Podemos dizer que começa agora um processo de descompressão das expectativas inflacionárias.
A projeção para a inflação de 2025 recuou para 4,86%, contra 4,95% na semana anterior e 5,10% há quatro semanas. Para 2026 também houve melhora, com expectativa de 4,33%, ante 4,44% há um mês. Trata-se de uma redução significativa de cerca de 30 pontos-base para este ano e de 10 pontos para o próximo.
Em contrapartida, a expectativa de crescimento do PIB começou a ceder levemente, ficando em 2,18% para 2025, abaixo dos 2,20% de semanas anteriores. Isso tem muito a ver com o comportamento recente da inflação: os dados de junho e julho vieram melhores do que o esperado, a taxa de câmbio se apreciou para a casa dos R$ 5,40 (reduzindo preços de importados), e os preços de alimentos mostraram alívio, favorecidos pelo aumento de oferta de produtos como café, carnes e peixes.
Outro fator crucial foi o discurso de Jerome Powell em Jackson Hole na última sexta-feira. O presidente do Federal Reserve sinalizou que já em setembro deve haver cortes de juros, com possibilidade de mais dois cortes até o fim do ano, o que poderia levar a taxa básica americana para 3,75%. Esse movimento, visto pelo mercado como um “pivô dovish”, fortalece o diferencial de juros a favor do Brasil, atrai capital estrangeiro, valoriza o real e contribui para reduzir as expectativas de inflação doméstica.
No Brasil, o Banco Central havia elevado a Selic para 15%, e o Focus mostra que o mercado ainda vê essa taxa permanecendo até o fim de 2025, com possibilidade de queda para 12,5% em 2026. Esse juro elevado, somado ao cenário internacional mais favorável, ajuda a ancorar expectativas e explica a melhora recente dos números.
Vale destacar ainda o contraste com a Europa. Enquanto Powell sinalizou cortes, Christine Lagarde, presidente do BCE, adotou um tom mais cauteloso, afirmando que, por ora, não haverá redução adicional de juros. Isso se deve ao fato de que as taxas europeias já estão mais baixas e o BCE prefere aguardar mais evidências antes de afrouxar ainda mais a política monetária.
Assim, o quadro atual é de um mercado reagindo positivamente, com forte rali na sexta-feira após os sinais do Fed, e de uma primeira vitória do Banco Central brasileiro na tarefa de debelar as expectativas inflacionárias.





