*Nota Técnica nº 2/2025 da ObD/UFMG
https://pesquisas.face.ufmg.br/gppd/wp-content/uploads/sites/24/2025/07/ObD_NT-02-2025.pdf
1. Estrutura das exportações brasileiras: dominância de produtos primários
A composição das exportações brasileiras segue fortemente concentrada em produtos primários e bens baseados em recursos naturais. Em 2024, esses dois grupos somam quase 80% das exportações totais do país: os produtos primários alcançaram US$ 162 bilhões e os baseados em recursos, US$ 104 bilhões. Em contraste, as exportações de bens industriais — especialmente os de média e alta tecnologia — representam uma fração modesta: US$ 46 bilhões para média tecnologia e apenas US$ 9 bilhões para alta tecnologia. Isso revela um padrão estrutural de especialização regressiva, ainda dependente de commodities e com fraca inserção nas cadeias globais de valor mais sofisticadas.
2. Desempenho desigual entre setores tecnológicos
Apesar do peso reduzido, alguns segmentos de média e alta tecnologia apresentaram forte crescimento recente. O gráfico 3 mostra que as exportações de navios e embarcações cresceram 833% entre 2022 e 2024, seguidas por materiais radioativos (258%), máquinas de energia elétrica (156%) e caldeiras (136%). O segmento de aeronaves, tradicionalmente relevante, cresceu 42%. Por outro lado, diversas manufaturas tiveram forte retração, como polímeros de estireno (-64%), monitores e TVs (-62%) e medidores e contadores (-55%), indicando perda de espaço internacional em segmentos relevantes da indústria química e eletroeletrônica.
3. Destaques positivos: aeronaves e máquinas de energia elétrica
A análise mais detalhada do valor exportado por segmento mostra que as aeronaves seguem como principal item industrial exportado: saltaram de US$ 2,9 bilhões em 2020 para US$ 4,4 bilhões em 2024, com crescimento mais expressivo a partir de 2023. O segmento de máquinas e aparelhos de energia elétrica, embora parta de uma base menor, mais do que triplicou suas exportações no período, de US$ 287 milhões em 2020 para US$ 932 milhões em 2024. Esses dados sugerem que, mesmo em um contexto de desindustrialização, há ilhas de competitividade tecnológica no Brasil que podem ser potencializadas com políticas públicas adequadas.
4. Tendência recente: crescimento relativo dos bens industriais em 2024
Embora os valores absolutos ainda sejam baixos, houve um leve aumento da participação das exportações de média e alta tecnologia em 2024, revertendo parcialmente a tendência de queda dos anos anteriores. A estabilidade das exportações baseadas em recursos e a leve queda das de produtos primários abriram espaço para esse ganho relativo. Contudo, ainda estamos longe de uma reconfiguração estrutural do perfil exportador: em valor, as exportações de média tecnologia ainda são quase quatro vezes menores que as de produtos primários.
5. Desindustrialização exportadora: perdas em setores relevantes
Apesar de alguns segmentos com forte alta, o gráfico 3 revela um processo mais amplo de retração industrial nas exportações, com quedas significativas em diversos setores da indústria de transformação, como farmacêuticos (-50%), polímeros (-50% a -64%) e monitores e televisores (-62%). Esses segmentos costumam ter alto valor agregado e sofisticação tecnológica, o que torna sua perda ainda mais preocupante. A descontinuidade industrial pode gerar perda de capacidades produtivas e tecnológicas de longo prazo.
6. Conclusão: necessidade de política industrial ativa
Os dados reforçam a urgência de uma nova política industrial voltada à reconfiguração do padrão exportador brasileiro. O crescimento de setores como aeronaves e máquinas elétricas mostra que há capacidade instalada e know-how em nichos de tecnologia. No entanto, sem apoio público contínuo, investimento em inovação e estratégia de inserção internacional, o país continuará preso a um modelo primário-exportador. Aumentar a complexidade produtiva e tecnológica das exportações é chave para o desenvolvimento sustentado e soberano.







