O Federal Reserve decidiu nesta quarta-feira manter a taxa básica de juros no intervalo de 3,50% a 3,75%, num placar apertado de nove votos a três. Os três dissidentes — os presidentes regionais Beth Hammack (Cleveland), Neel Kashkari (Minneapolis) e Lorie Logan (Dallas) — queriam ir além e subir os juros em 0,25 ponto já nesta reunião. Muita gente caracterizou o resultado como o maior “não corte” de juros dos últimos tempos, porque havia grande expectativa em torno do encontro.
Foi, na prática, a primeira reunião de verdade sob a batuta de Kevin Warsh. Ele já havia assumido o comando na reunião anterior, mas se mantivera discreto; agora, com um pouco mais de tempo de mandato, o placar de 9 a 3 mostra que há uma divisão importante dentro do comitê.
Os comentários de Warsh na entrevista coletiva reforçaram a ideia de que não haverá corte nem em setembro. Ele falou em um período de “reflexão vigilante”, de acompanhamento dos dados. O Fed reconheceu que o ritmo de atividade segue sólido, apesar da incerteza ligada ao Oriente Médio, mas destacou que a inflação continua pressionada, acima da meta de 2%. Warsh chegou a brincar que queria uma “boa briga de família” no comitê — referência às divisões e aos três diretores que defendiam alta imediata.
Por enquanto, portanto, o que temos é um discurso duro (hawk) combinado com manutenção da taxa. O mercado, no entanto, fez uma leitura mais dovish no curto prazo: tirou boa parte da probabilidade de alta nas próximas reuniões. Ao mesmo tempo, a curva americana ficou mais inclinada — os juros mais longos subiram, com a T-note de 10 anos avançando. É o clássico movimento de empinada (bear steepening): se não subiu agora, o mercado passa a precificar que terá de subir lá na frente.
Para o Brasil, a redução da aposta em alta no curto prazo é positiva. Juros mais baixos nos Estados Unidos aliviam a conversa do lado dos emergentes. A curva de juros brasileira oscilou bastante ao longo do dia: chegou a fechar (cair), mas no fim acabou subindo, por reflexo da empinada na curva americana — quando o juro longo lá fora sobe, o nosso longo tende a acompanhar. O real chegou a se valorizar um pouco. Tivemos ainda um dado fraco de Caged; resta ver como vem a PNAD Contínua.
No fim das contas, porém, a reunião do Fed eclipsa os dados domésticos: o juro americano fala mais alto na definição do que acontece por aqui. A decisão de hoje é essa — juro mantido, discurso duro, mas sem perspectiva de alta no curto prazo, com a ponta longa da curva empinando.



