O FlatFish é um dos maiores marcos da engenharia submarina desenvolvida no Brasil nas últimas décadas. Criado no Senai CIMATEC, em Salvador (BA), em parceria com a Shell Brasil e o Centro Alemão de Inteligência Artificial (DFKI), o projeto representa uma revolução na forma como as grandes companhias de energia realizam inspeções, monitoramento e manutenção de estruturas instaladas no fundo do mar.
O desenvolvimento do FlatFish começou em 2014, dentro de um programa de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) aprovado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com apoio técnico e financeiro da Shell. O objetivo era claro: criar um robô autônomo subaquático (AUV) capaz de realizar inspeções em ambientes complexos e de difícil acesso, com autonomia, precisão e segurança, reduzindo a necessidade de operações humanas e o uso de embarcações de apoio.
Tecnologia e funcionamento
O FlatFish tem formato hidrodinâmico, lembrando um peixe achatado — daí seu nome. Sua estrutura compacta abriga sensores ópticos, câmeras de alta resolução, sonares, lasers e sistemas de navegação inercial, que permitem mapear e inspecionar dutos, manifolds, válvulas e outras estruturas submarinas com altíssima precisão.
Diferente dos ROVs tradicionais (Veículos Operados Remotamente), o FlatFish não depende de um cabo umbilical nem de controle direto por operadores humanos. Ele é um robô autônomo, programado para realizar missões inteiras de forma independente — do trajeto de inspeção até a coleta e transmissão de dados. Ao final de cada operação, ele retorna para uma docking station submarina, onde recarrega suas baterias e transfere as informações coletadas para análise.
Essa autonomia faz dele uma tecnologia de próxima geração na chamada “subsea residency” — conceito que prevê robôs residentes no fundo do mar, prontos para intervir a qualquer momento, reduzindo drasticamente custos logísticos e emissões associadas ao uso de navios.
Parcerias e industrialização
O projeto foi conduzido pelo Senai CIMATEC com suporte técnico do DFKI (Deutsches Forschungszentrum für Künstliche Intelligenz), referência mundial em robótica subaquática. A Shell atuou como principal financiadora e orientadora do projeto, com foco em transformar o protótipo em uma solução operacional para o setor de óleo e gás.
Em 2022, a Shell anunciou o licenciamento da tecnologia para a empresa italiana Saipem, uma das líderes globais em engenharia submarina. O acordo permitiu transformar o FlatFish em um produto comercial, pronto para ser empregado em contratos de inspeção de campos marítimos — incluindo projetos da Petrobras no pré-sal brasileiro.
Impacto e benefícios
O FlatFish inaugura uma nova era de operações autônomas submersas. Ao eliminar a necessidade de mergulhadores e embarcações de apoio para tarefas rotineiras de inspeção, o robô reduz custos operacionais, aumenta a segurança e diminui significativamente as emissões de carbono associadas às operações offshore.
Além disso, ele gera um volume de dados em altíssima resolução, que permite monitorar o estado estrutural de instalações submarinas de forma contínua e preditiva — antecipando falhas e reduzindo o risco de vazamentos.
Essa capacidade coloca o Brasil na vanguarda da inovação em robótica submarina, com uma tecnologia concebida e testada em solo nacional, mas com impacto global.
O legado do FlatFish
Mais do que um robô, o FlatFish simboliza o amadurecimento do ecossistema de inovação tecnológica brasileiro, mostrando que é possível desenvolver soluções complexas em parceria entre empresas, centros de pesquisa e universidades.
Com o sucesso do projeto, o Senai CIMATEC consolidou-se como um dos principais centros de P&D do hemisfério sul em robótica submarina, abrindo caminho para novas gerações de veículos autônomos e para a integração de inteligência artificial, sensores e automação no ambiente subaquático.
Hoje, o FlatFish é visto não apenas como um feito tecnológico, mas como um símbolo da transição da indústria de energia para operações mais seguras, limpas e inteligentes — e um exemplo de como a cooperação entre Brasil, Alemanha e multinacionais pode gerar inovação de classe mundial.


Me recorda o VSNT da FATEC-JAU! Ensaio realizado com intuito de analisar parâmetros do Veículo Sumersível Não Tripulado JAU IV, em ambiente real no Rio Grande na cidade de Rifaina – SP. https://youtu.be/vA866mE-WzE?si=cl2O6n6mwE1yTYyo