A teoria econômica tradicional sugere que a globalização levaria naturalmente à convergência de renda entre países pobres e ricos. A lógica por trás dessa ideia é que a abertura comercial, os fluxos de capital e a disseminação de tecnologia permitiriam que países em desenvolvimento crescessem mais rápido do que as economias avançadas, reduzindo a desigualdade global. No entanto, essa visão ignora um aspecto crucial: o papel das políticas industriais e da intervenção estatal. Os casos da China e da Índia demonstram que não foi o mercado, por si só, que impulsionou a ascensão econômica desses países, mas sim estratégias deliberadas de industrialização e proteção de setores estratégicos.
A China, por exemplo, combinou sua integração ao comércio global com um forte planejamento estatal. Desde as reformas de Deng Xiaoping nos anos 1980, o país manteve uma economia mista, onde o governo controlava setores estratégicos, direcionava investimentos e protegia indústrias nascentes até que estivessem prontas para competir globalmente. O uso de subsídios, controle cambial e transferência de tecnologia foram fatores decisivos para transformar a China na fábrica do mundo e, depois, em uma potência tecnológica. Sem esse direcionamento estatal, a globalização poderia ter condenado a China a permanecer como fornecedora de produtos primários, como aconteceu com muitos países latino-americanos.
A Índia seguiu um caminho semelhante, embora menos centralizado. Mesmo após a abertura econômica dos anos 1990, o país manteve políticas industriais voltadas para setores estratégicos, como tecnologia da informação e indústria farmacêutica. O governo indiano investiu fortemente em educação técnica e engenharia, permitindo que empresas locais competissem no mercado global. O sucesso da Índia não veio apenas da liberalização comercial, mas de um esforço para construir capacidades produtivas internas, evitando a dependência excessiva de capitais e tecnologias estrangeiras.
O fracasso da América Latina, por outro lado, mostra os limites da abordagem mercadista pura. Desde os anos 1980, a maioria dos países latino-americanos seguiu políticas de abertura comercial irrestrita, privatizações e desregulamentação, apostando que o mercado sozinho impulsionaria o crescimento. O resultado foi uma desindustrialização precoce, dependência de commodities e crescimento econômico instável. Diferente da Ásia, a América Latina não conseguiu criar empresas globais competitivas nem desenvolver cadeias produtivas robustas. A globalização, em vez de trazer convergência, aprofundou a desigualdade entre os países da região e os líderes globais.
Portanto, a ideia de que a globalização por si só levaria à convergência de renda ignora o papel essencial das políticas industriais. Os casos da China e da Índia mostram que o desenvolvimento bem-sucedido depende de estratégias nacionais para fortalecer a indústria e a inovação. Já a América Latina prova que confiar apenas no mercado pode ser um erro fatal. A globalização pode ser uma ferramenta poderosa para o crescimento, mas apenas se combinada com um Estado capaz de orientar o processo de desenvolvimento econômico.

