Governo americano volta a investir com força na economia

Quando foi eleito o presidente Biden anunciou o maior programa de investimento público desde o New Deal para reconstruir a infraestrutura do país e reposicionar os Estados Unidos para competir com a China. O Plano Biden pretende criar e reformar pontes, portos, aeroportos, refazer toda a infraestrutura de água (inclusive substituindo todos os canos de chumbo), fazer retrofit de prédios comerciais e residenciais para que usem energia mais eficiente, modernizar escolas e hospitais, revitalizar a infraestrutura digital, entre outras ações. Há três aspectos interessantes que chamam atenção. O primeiro deles é a questão da sustentabilidade: há uma grande ênfase de que a reconstrução tem de ser feita substituindo a atual infraestrutura por uma infraestrutura sustentável e resiliente. O segundo aspecto é o lado social. Uma parte do plano visa compensar os trabalhadores de saúde oferecendo benefício para os cuidadores (home care), há diversas ações para reduzir as desigualdades raciais, de gênero e mesmo a desigualdade regional. O terceiro ponto que chama atenção é a ênfase de que os investimentos produzam empregos de boa qualidade com salários dignos e direito a se filiar a um sindicato e negociar coletivamente.

Nos últimos dois anos Biden e os democratas promulgaram uma série de leis para reativar a manufatura nos Estados Unidos; um pacote investimentos de mais de US$ 2 trilhões. A Lei dos chips, aprovada em julho de 2022, inclui US$ 39 bilhões para estimular produção nacional de semicondutores, juntamente com investimentos ainda maiores em pesquisa e desenvolvimento. A Lei de Redução da Inflação (IRA), aprovada em agosto de 2022, aumenta os incentivos para energia limpa de várias maneiras, incluindo créditos fiscais para manufatura. O Congressional Budget Office estima que isso custará US$ 37 bilhões ao longo de uma década, embora possa ser muito mais, já que o ira não limita o valor total dos créditos que podem ser concedidos. Também existem subsídios indiretos para os fabricantes na forma de créditos fiscais e para os consumidores que compram produtos fabricados nos Estados Unidos. Há uma infinidade de novos regulamentos favoráveis as manufaturas americanas, como as regras “Buy American” para compras governamentais, algo que já vinha sendo praticado desde o governo Trump. Em 2021, o Congresso também aprovou US$ 1,2 trilhão em gastos em infra-estrutura, destinada em parte a tornar a manufatura americana mais competitiva. Os subsídios se aplicam principalmente a duas indústrias: energia limpa e semicondutores. A intenção não é apenas estimular a fabricação, mas também conter as mudanças climáticas, limitar a dependência da China e estimular partes dos EUA que ficaram para trás.

Esses esforços para fomentar certas indústrias já parecem estar trazendo frutos. As montadoras anunciaram US$ 68 bilhões em projetos em 2021 e 2022 – o maior boom de construção do setor em décadas. Desde que Biden se tornou presidente, indústrias anunciaram cerca de US$ 290 bilhões em novos investimentos nessas áreas. A General Motors anunciou recentemente um investimento de US$ 650 milhões em um nova mina de lítio em Nevada. Analistas avaliam que os painéis solares fabricados nos Estados Unidos poderão atender a 90% da demanda doméstica até 2030, uma perspectiva que teria sido inimaginável antes das novas leis e subsídios do plano Biden. Tudo isso marca uma grande mudança na política econômica americana. Nos últimos 40 anos, sucessivos governos seguiram uma receita diferente para o crescimento: acordos de livre comércio, impostos baixos e relativamente pouca regulamentação. Agora os investimentos do plano Biden têm por objetivo usar materiais mais sustentáveis e inovadores, incluindo aço e cimento mais limpos e peças e componentes produzidos nos EUA. Os investimentos em infraestrutura irão mitigar as disparidades socioeconômicas, promover a equidade racial e promover o acesso a oportunidades. Nas últimas décadas os investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) caíram como porcentagem do PIB nos EUA. Países como a China estão investindo agressivamente em ciência e tecnologia e a China agora ocupa o segundo lugar no mundo em gastos nessa área. Para recuperar a hegemonia Biden acredita que os Estados Unidos devem voltar a investir em pesquisadores, laboratórios e universidades em todo o país. Esse grande movimento do governo americano muda as condições de competição por capitais no mundo. Governos da Europa e Asia do Leste estão desenhando planos semelhantes. O governo brasileiro precisa entrar nessa briga o quanto antes, sob risco de ficarmos para trás de novo.

 

Ideais chave:

1)Quando foi eleito o presidente Biden anunciou o maior programa de investimento público desde o New Deal para reconstruir a infraestrutura do país e reposicionar os Estados Unidos para competir com a China.

2)Há três aspectos interessantes que chamam atenção: sustentabilidade, o lado social e os investimentos em empregos de boa qualidade

3)Desde que Biden se tornou presidente, indústrias anunciaram cerca de US$ 290 bilhões em novos investimentos nessas áreas.

4)Esse grande movimento do governo americano muda as condições de competição por capitais no mundo. Governos da Europa e Asia do Leste estão desenhando planos semelhantes.

5)O governo brasileiro precisa entrar nessa briga o quanto antes, sob risco de ficarmos para trás de novo.

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