Governos e suas Campeãs internacionais em combate: a história da rivalidade entre a coreana Samsung e a taiwanesa TSMC em semicondutores

*escrito com Felipe Augusto

Zhang Zhongmou, o fundador da TSMC, que se originou a partir do Instituto de Pesquisa em Tecnologia Industrial de Taiwan (ITRI), era um executivo da Texas Instruments, empresa de semicondutores americana. Convidado para assumir o ITRI, deixou os EUA e fundou a TSMC em 1987. Em 1989, o Presidente da Samsung Li Jianxi foi a Taipei tentar convencer Zhang a trabalhar para a Samsung, que àquela altura já tinha 15 anos de experiência com semicondutores. Li levou Zhang até Seul, mostrou a fábrica, insistiu, mas o fundador da TSMC preferiu continuar em Taiwan. Tinha planos mais ousados. A TSMC convocou vários expatriados que estudaram e trabalharam com alta tecnologia nos EUA. Também fez uso da demanda das empresas americanas. No final dos anos 80, o setor enfrentava transformações, e a separação entre o design e a fabricação dos chips passou a ser possível. Ao terceirizar a custosa e difícil tarefa de fabricação, as empresas americanas podiam se especializar no desenho dos chips

Em 1988, a Intel fez seu primeiro pedido, junto com um manual explicando cerca de 200 rotinas produtivas. A empresa começou a se tornar conhecida, mas nos anos 90 a TSMC ainda era considerada pelas empresas do Vale do Silício como uma empresa de segunda linha, cuja tecnologia era licenciada pela IBM e que não tinha autonomia tecnológica. Em 2003, a IBM tentou vender uma nova técnica de processamento de cobre para a TSMC, mas Zhang tinha outros planos. Reuniu uma equipe de engenheiros e, um ano depois, desenvolveu um processo próprio. Dez anos depois, a IBM abandonaria essa área. Outro processo que foi um divisor de águas para a TSMC foi a máquina de litografia. Diante da resistência da Canon e da Nikon, líderes na fabricação do produto na época, a TSMC fez parceria com a então pequena empresa holandesa ASML, e ambos se beneficiaram; Li Jianxi era o chefe de design da Samsung Eletronics desde que ela entrou no ramo de semicondutores em 1974. Em 1987, quando seu pai e Presidente da Samsung Li Bingzhe morreu, a área de semicondutores tinha acumulado prejuízo de US$ 300 milhões em 13 anos

Naquele momento, o Japão ameaçava a liderança tecnológica dos EUA. No final da década, 6 das 10 maiores empresas de semicondutores eram japonesas. Ao descobrir que a Toshiba havia vendido equipamentos para a URSS, os EUA aproveitaram e sancionaram os japoneses com altas tarifas de importação. A Samsung não perdeu tempo. Contratou engenheiros da Toshiba, aprimorou a tecnologia, realizou vendas agressivas com preços abaixo do custo e convocou engenheiros sul-coreanos expatriados para avançar sobre o espaço perdido pelos japoneses. Em 2004 se tornou líder em chips de memória. Em seguida, voltou sua mira para a TSMC. Aproveitando-se da diversidade produtiva, convenceu Qualcomm e Apple a terceirizar a produção de chips para a Samsung. Para a primeira, prometeu incorporar os chips da americana nos seus aparelhos. Para a segunda, ofereceu chips de memória e telas eletrônicas, conseguindo contratos importantes. Porém, a concorrência da Samsung em smartphones começou a incomodar a Apple, ao mesmo tempo que a americana dependia de componentes da coreana

De 2008 a 2011, a Samsung saiu de 6% para 20% do mercado mundial. A Apple reagiu. Transferiu chips de memória para a Toshiba em 2008 e telas para a Sharp em 2011. Em 2010, o COO da Apple Jeff Williams foi a Taiwan para fechar um acordo com a TSMC. A Apple prometeu terceirizar uma geração inteira de chips à TSMC, que deveria buscar US$ 9 bilhões para expandir a produção e contratar mais 6 mil trabalhadores . A TSMC reuniu um time de 100 engenheiros de ponta e os enviou para a sede da Apple em Cupertino. Assinaram acordos de confidencialidade e aprenderam a fabricar chips de 8 nm. Porém, patente central da tecnologia destes chips era da Samsung. Prevendo reação, a TSMC resolveu ir além, desenvolvendo duas versões do chip de 8nm, além de se aventurar nos chips de 6nm. A ambição da TSMC era impressionante. Em 2013, metade da receita anual da TSMC foi utilizada para expandir a produção. A Samsung, que não sabia do acordo com a Apple, mas percebia o crescimento da taiwanesa, não iria deixar assim

Em 2009, o neto mais velho de Li Jianxi já havia anunciado um plano em uma reunião interna da Samsung, denominado “Matar Taiwan”. Primeiramente, a intenção era eliminar a concorrência em telas e chips de memória, e em seguida destruir a TSMC na fabricação de chips. Para isso, contatou Liang Mengsong, um dos principais nomes por trás do desenvolvimento da técnica de processamento de cobre que se mostrou um diferencial da TSMC. Ele havia pedido demissão em 2009 ao não ser promovido a Diretor de P&D. Sua esposa era coreana e ele resolveu dar aula em uma universidade coreana. Dois anos depois ele se tornaria Chefe do Departamento de Chips da Samsung, recebendo três vezes mais do que recebia na TSMC. O avanço tecnológico da Samsung foi muito rápido entre 2009 e 2011, reduzindo a distância tecnológica que existia a favor da TSMC. Essa, por sua vez, tinha certeza que Liang tinha violado um acordo de dois anos entre ele e a empresa que o impossibilitava de trabalhar em uma empresa concorrente. Havia fortes indícios, como o fato de que a sala de aula em que dava aulas na universidade coreana ficava em área pertencente a uma fábrica da Samsung, bem como viagens entre Seul e Taipei a bordo de aviões privados da Samsung

A Samsung avançou com tudo sobre a TSMC. Voltou a obter contratos com a Apple, utilizando processo desenvolvido por antigo chefe de Liang (processo FinFET). A imprensa taiwanesa lamentava: “As vantagens técnicas da TSMC foram varridas de um dia para o outro”. A Qualcomm também trocaria a TSMC pela Samsung naquele período. Zhang, o fundador da TSMC, resolveu voltar da aposentadoria e contra-atacar: organizou um time de P&D sem precedentes no setor, conhecido como Exército Rouxinol, em referência ao pássaro que se faz ouvir, especialmente à noite. Implementou 3 turnos de P&D e reuniu mais de 400 engenheiros. Zhang reforçou também o Departamento Jurídico, que descobriu, entre outras coisas, que 10 estudantes de Liang eram engenheiros da Samsung e que Liang havia utilizado email da empresa no período em que vigorava o acordo. O processo “desenvolvido” pela Samsung, mostraram os advogados, continha 7 aspectos cruciais que eram iguais aos da TSMC. Venceram o caso, e Liang não poderia voltar à Samsung até o final de 2015.

A vitória jurídica da TSMC, conta a matéria, foi um esforço conjunto dos círculos empresariais, políticos e legais. Além de ter se originado de um Instituto de Pesquisa, a empresa recebe vultosos subsídios do Governo e tem como seu maior acionista o Fundo Nacional de Desenvolvimento de Taiwan, que deve, segundo seu estatuto, aprimorar a estrutura industrial em consonância com aa estratégia de desenvolvimento industrial nacional. Segundo a OCDE, de 2014 a 2018 foi a quarta empresa do setor que mais recebeu subsídios no mundo (mais de US$ 4 bilhões), Em relação ao seu faturamento, somente ficou atrás de empresas chinesas. Na área jurídica, o juiz chegou a afirmar: “Se não protegêssemos empresas como a TSCM, quem mais protegeríamos?”

A TSMC virou o jogo. A empresa possui hoje mais de 50% do mercado de fabricação de chips por contrato e é a espinha dorsal da economia taiwanesa. A nova fábrica consome um terço da nova energia gerada no país, e seus mais de 40 mil empregados contribuíram com mais de 1% de todos os bebês nascidos em Taiwan em 2019. Em média, há uma grande fábrica a cada mil km². A batalha foi vencida, mas a guerra nunca acaba neste setor. Em 2016, Jiang Shangyi, segundo na hierarquia da empresa e conhecido carinhosamente pelos taiwaneses com “pai Jiang”, avisou que estava se mudando para a China para trabalhar pela estatal SMIC como Diretor. Mais recentemente, assumiu como CEO da Wuhan Hongxin. Em 2017, Liang Mengsong, que perdeu a batalha jurídica com a TSMC, deixou a Samsung e virou co-CEO na SMIC. Yang Guanglei, um dos seis engenheiros responsáveis pela superação da dependência tecnológica TSMC em relação à IBM no início dos anos 2000, voltou da aposentadoria e seguiu para a SMIC para trabalhar como Diretor. Em um evento no ano passado, Jiang Shangyi afirmou: “A Lei de Moore (de que o número de transistores em cada chip dobraria a cada dois anos) está diminuindo, e há uma excelente oportunidade para os semicondutores chineses atingirem a fronteira tecnológica”. Com a importância estratégica atribuída ao setor pela China, o inimigo agora é outro.

Matéria completa: https://m.huxiu.com/article/360061.html

Links: https://asia.nikkei.com/Business/Companies/TSMC-to-add-3-000-engineers-in-next-gen-chip-war-with-Samsung

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