Hamilton e List na CEPAL: Afinidades Intelectuais e a Formação do Estruturalismo Latino-Americano

Prebisch e Furtado leram Hamilton e List?

A pergunta “Prebisch e Furtado leram Alexander Hamilton e Friedrich List?” exige cautela metodológica. Não há uma evidência amplamente consolidada de que ambos tenham construído seus argumentos centrais a partir de leituras diretas e sistemáticas de Hamilton, e mesmo no caso de List a influência aparece mais como afinidade intelectual do que como filiação explícita. O mais preciso, portanto, é tratar Hamilton e List como parte de uma tradição de economia política do desenvolvimento que dialoga com o estruturalismo latino-americano, seja por canais indiretos, seja por convergência de diagnóstico e de prescrição. Alexander Hamilton, no final do século XVIII, formula uma visão estratégica de desenvolvimento nacional na qual manufaturas, finanças públicas e poder estatal se articulam para criar capacidade produtiva. A ideia central é que países retardatários não conseguem competir em igualdade de condições com economias já industrializadas se dependerem apenas do livre-comércio e da especialização “natural”. Nessa leitura, o Estado tem papel ativo: sustenta a aprendizagem produtiva, organiza instrumentos financeiros e cria condições para a diversificação industrial. Georg Friedrich List, no século XIX, dá densidade teórica e histórica a esse mesmo impulso, ao defender um “sistema nacional” de desenvolvimento baseado na construção de forças produtivas: infraestrutura, educação, instituições, tecnologia e indústria. Para List, desenvolvimento não é somente eficiência alocativa no curto prazo; é, sobretudo, transformação estrutural no longo prazo. Daí a defesa de proteção temporária e políticas de fomento para que setores “infantes” amadureçam e passem a competir em patamares superiores de produtividade. Quando se observa o nascimento da CEPAL e do estruturalismo latino-americano, o ponto de contato mais importante com Hamilton e List não é uma cadeia de citações, mas um modo de pensar. O estruturalismo nasce como método histórico e situado: parte da realidade concreta das economias periféricas e recusa a ideia de que as mesmas regras e recomendações funcionam de forma idêntica em qualquer tempo e lugar. Essa postura “historicista” aproxima a CEPAL da tradição de economia política que vê o desenvolvimento como um processo institucional e cumulativo, e não como simples resultado espontâneo de mercados. Em Raúl Prebisch, a grande contribuição é deslocar o foco do comércio internacional como mecanismo neutro para uma visão de sistema centro-periferia. O problema deixa de ser apenas “participar do comércio” e passa a ser “em que posição se participa”, com que padrão de especialização, com que capacidade de difundir progresso técnico e com que poder de negociação. Isso cria um diagnóstico estrutural: a periferia tende a ficar presa em atividades de menor dinamismo tecnológico e, por isso, enfrenta obstáculos persistentes para elevar produtividade, renda e complexidade econômica. Esse diagnóstico não é idêntico ao argumento de indústria nascente, mas conversa com ele. Se a estrutura internacional e a forma de inserção comercial reproduzem assimetrias tecnológicas, então a diversificação produtiva exige uma ação deliberada de transformação. A industrialização, para a CEPAL, não é só uma escolha setorial; é uma estratégia para internalizar progresso técnico, aumentar encadeamentos produtivos e reduzir vulnerabilidades externas. É nesse ponto que a família Hamilton–List funciona como referência intelectual: não pela literalidade, mas pelo princípio de que capacidade produtiva se constrói. Em Celso Furtado, essa convergência tende a aparecer de modo ainda mais “orgânico”, porque sua abordagem enfatiza formação histórica, estruturas produtivas e mecanismos de reprodução do subdesenvolvimento. Furtado trata o subdesenvolvimento como configuração específica, marcada por heterogeneidade estrutural: coexistência de setores modernos de alta produtividade com vastos segmentos de baixa produtividade e baixa renda. Essa visão reforça a ideia de que desenvolvimento é mudança estrutural — e que o Estado precisa coordenar investimentos, reduzir gargalos e criar condições para que a modernização se difunda, em vez de ficar restrita a enclaves. Assim, a influência de Hamilton e List sobre a CEPAL pode ser entendida como uma “gramática” de industrialização tardia: a noção de que países periféricos enfrentam concorrência assimétrica e que, sem política econômica, a especialização pode cristalizar o atraso relativo. No estruturalismo latino-americano, essa gramática é reinterpretada à luz do centro-periferia, da restrição externa, da difusão desigual do progresso técnico e da dinâmica social interna. A política industrial deixa de ser um expediente pontual e passa a integrar um projeto de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, é essencial reconhecer as diferenças. O estruturalismo latino-americano não é uma repetição do pensamento do século XIX: ele adiciona a crítica às assimetrias da economia mundial do pós-guerra, incorpora a preocupação com instabilidade externa, enfatiza a heterogeneidade estrutural e articula desenvolvimento com distribuição, emprego e coesão social. Em outras palavras, a CEPAL não apenas “defende indústria”: ela constrói um diagnóstico sistêmico sobre por que a periferia tende a ficar atrás e quais mecanismos precisam ser alterados para que haja convergência. Em síntese, é mais rigoroso afirmar que Prebisch e Furtado compartilham com Hamilton e List um núcleo comum de economia política do desenvolvimento — Estado como organizador da transformação produtiva, industrialização como construção de capacidades, e historicidade como método — do que sustentar uma dependência direta por leitura e citação. O legado de Hamilton e List, nesse enquadramento, atua como antecedente intelectual: oferece um repertório de ideias sobre como nações retardatárias podem escapar de especializações limitantes. A CEPAL e o estruturalismo, por sua vez, atualizam esse repertório para explicar e enfrentar a condição periférica latino-americana no século XX.

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