Hidrogênio de etanol para abastecer carros: mais uma ideia genial que perdemos!

*escrito por Tarcísio de Oliveira

Em pleno pico da safra no sudeste e centro oeste brasileiro, maiores regiões produtoras de cana de açúcar do Brasil, temos visto o valor do litro de Etanol nas bombas com valor superior a 70% da gasolina (que é considerado por especialistas o percentual limite para que seja mais econômico que o combustível fóssil nos carros com motor bicombustível). Mas esta já não é a única tecnologia verde que estamos perdendo em um momento em que a economia limpa aposta tanto em fontes de energia renováveis. A Nissan está fazendo testes com carros elétricos que dispensam a necessidade de recarga externa para as baterias. Em vez disso, o dono apenas abastece o tanque com etanol, como em qualquer veículo existente hoje. A diferença é que o etanol sofre um processo chamado de reforma-vapor, no qual este composto reage quimicamente com a água, produzindo uma mistura gasosa cujo componente principal é o hidrogênio. A eficiência desse processo situa-se na casa dos 80%. Uma vez disponível, esse hidrogênio pode ser utilizado energeticamente em motores de combustão interna, turbinas a gás e células a combustível. Este último dispositivo é um reator eletroquímico que converte o hidrogênio e o oxigênio do ar em eletricidade, calor e água, com elevada eficiência de conversão (em torno de 50%), que é o caso da tecnologia da Nissan. A eficiência global da combinação etanol, hidrogênio e veículos com células a combustível está por volta de 40%, quase o dobro daquela verificada nos veículos com motores de combustão interna a álcool (cerca de 25%), sendo que em todo seu ciclo de produção e utilização não há praticamente nenhuma emissão de poluentes. Pode ser empregada também em aplicações aonde o etanol não vem sendo utilizado diretamente, como veículos pesados (ônibus e de carga) e geração distribuída de eletricidade (sistemas isolados e rurais, sistemas complementares à rede elétrica, de segurança, etc). A UNICAMP, através de seu Laboratório de Hidrogênio do Instituto de Física Gleb Wathagin (IFGW), já havia vislumbrado e pesquisado essa tecnologia há quase 20 anos, com resultados satisfatórios. Entretanto, nossos pesquisadores e acadêmicos visionários mais uma vez foram deixados na berlinda por ausência de uma política industrial integrada a nossos centros de pesquisa.

Refs: https://www.nipe.unicamp.br/docs/publicacoes/ac.els-cdn.com-s0360544208002958-1-s2.0-s0360544208002958-main.pdf

https://www.mobiauto.com.br/revista/por-que-nissan-tentara-extrair-hidrogenio-do-etanol-e-fiat-desistiu/915

2 thoughts on “Hidrogênio de etanol para abastecer carros: mais uma ideia genial que perdemos!”

  1. O termo biocombustível, o produto etanol, e a planta cana de açúcar, deveriam ser todos banidos da vida brasileira. Coletar energia solar através da cana é colossalmente ineficiente. Apenas 0,25% (um quarto de um porcento) da energia solar incidente em um canavial é transformado em energia armazenada no etanol líquido. O etanol é um ‘fenômeno’ essencialmente paulista, e de regiões vizinhas ao estado (leste de MS, sul de MG, etc), suportado por forte lobby político do agro concentrador e reacionário. O etanol como combustível tem relevância zero no resto do país. O etanol depende de tudo que é complexo e arriscado, estrategicamente: terra, água, insolação, clima, pragas agrícolas. A cana de açúcar e o etanol são produtos medievais, e acorrentam o Brasil a um passado medieval. Defender a cana e o etanol é um monumental desserviço ao progresso do país.

    1. Boa tarde. A sua premissa inicial, na crítica ao artigo, está errada por um fator de 10 no pior ambiente de plantio considerado no artigo científico recentemente publicado na “Renewable and Sustainable Energy Reviews” pelos pesquisadores da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, câmpus de Botucatu – SP. O objetivo do trabalho foi avaliar a eficiência da conversão da energia solar em biomassa, bem como a energia disponível por área (hectare) e a produtividade dos colmos, em função do ambiente de produção em diferentes cultivares. Em recente entrevista do professor Marcelo de Almeida Silva, coordenador do estudo e do grupo de pesquisa do Laboratório de Ecofisiologia Aplicada à Agricultura da FCA/UNESP, “A eficiência em converter energia solar em biomassa foi em média de 3,8% na cana planta (primeiro corte) e 3,3% na cana soca (segundo corte) em Ambiente de Produção A, e de 2,9% e 2,2%, respectivamente, em Ambiente de Produção C”, explicou .O artigo está disponível no link a seguir: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1364032121007796.
      Quanto a considerar o etanol combustível um “fenômeno paulista”, e com “relevência zero” no resto do país, também é um grande equívoco, pois além do uso do etanol hidratado puro, o anidro participa em 27% da gasolina comum e 25% da Premium, para aumentar o indíce de octanagem da gasolina e diminuir a emissão do monóxido de carbono na atmosfera. Segundo dados da ANP, o etanol teve uma participação de 48,1% em 2019 e 47,2% em 2020 no consumo de combustíveis líquidos, e se considerada a participação na matriz energética brasileira incluindo também a cogeração de energia elétrica, a participação da biomassa de cana de açúcar é de 18% (fonte: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-479/topico-521/Relato%CC%81rio%20Si%CC%81ntese%20BEN%202020-ab%202019_Final.pdf).
      Sobre a complexidade da produção agrícola, isto é um fato. Seria importante darmos maior importância, inclusive para exportação, de toda a tecnologia que desenvolvemos para esta atividade, seja no manejo varietal com a Embrapa, na agricultura de precisão com empresas como Solinftec, Enalta, gestão de produção agrícola como TOTVS, GATEC e implementos e máquinas como Marchesan e Stara. Mas isso já daria outro artigo…

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