A economia brasileira mostrou mais fôlego do que o mercado imaginava em maio. O IBC-Br, considerado uma prévia do PIB, subiu 0,1% na comparação com abril na série com ajuste sazonal — número modesto, mas que veio na contramão das apostas. A leitura superou a expectativa de economistas ouvidos pela Reuters, que projetavam estagnação. No detalhe, o desempenho foi puxado pela indústria. O setor industrial avançou 0,4% frente a abril e sustentou o resultado positivo, enquanto serviços subiram 0,1% e a agropecuária recuou 1,0%. Não fosse o tombo do campo, a economia teria crescido 0,2% no mês, segundo o próprio BC. Na comparação interanual, o índice subiu 0,8%, e no acumulado em 12 meses o ganho é de 1,4%.
O ponto que incomoda é a falta de consistência. Esse IBC-Br mais forte não conversa com o quadro que vinha se desenhando nos últimos indicadores — produção industrial, vendas do varejo, serviços e a própria inflação —, todos apontando para uma perda gradual de tração. Fica no ar a dúvida central: estamos diante de uma desaceleração pontual ou de algo mais estrutural? Analistas ainda leem o dado como parte de uma desaceleração ordenada no segundo trimestre, sem sinais de contração abrupta, com os efeitos defasados dos juros altos pressionando crédito, consumo e investimento nos próximos meses.
Para o Copom, é um problema. Na última reunião, o colegiado cortou a Selic em 0,25 ponto, para 14,25% ao ano, sinalizando que pretende levar a inflação à meta de 3% apenas no primeiro trimestre de 2028. O mercado ainda trabalha majoritariamente com um corte de 25 pontos-base na próxima reunião, mas a trajetória ficou mais nebulosa — o Focus projeta a Selic em 14% ao fim de 2026, o que embute mais um corte adicional no ano. Uma atividade resiliente reduz a urgência de continuar afrouxando.
E há um fator externo entrando em cena. A próxima decisão do Copom será nos dias 4 e 5 de agosto, ou seja, já sob o efeito do tarifaço americano, que passa a vigorar em 22 de julho e atinge centenas de produtos brasileiros. O choque comercial adiciona uma camada de incerteza justamente no momento em que o BC tenta calibrar o ritmo dos cortes — pesando sobre exportações e atividade de um lado, mas com potencial de mexer no câmbio e nos preços de outro.
O saldo é um Banco Central diante de sinais cruzados: uma atividade que insiste em resistir, dados setoriais que sugerem esfriamento e um choque tarifário no horizonte.

