*escrito com Felipe Augusto
Os produtos que estão no centro da redente parceria entre o Departamento de Defesa dos EUA (DoD) e a MP Materials têm aplicações cruciais em setores estratégicos para desenvolver imas estratégicos a partir de terras raras nos EUA. O destaque vai para a liga de neodímio-praseodímio (NdPr), essencial na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Esses ímãs são insubstituíveis em equipamentos que exigem força magnética concentrada em pequenos volumes, oferecendo elevada potência com baixo peso.
No setor de energia, os ímãs de NdPr são fundamentais para a transição energética. Eles estão presentes em turbinas eólicas de última geração, permitindo maior eficiência na conversão de energia do vento em eletricidade. Da mesma forma, são usados em motores elétricos de veículos híbridos e elétricos, contribuindo para o aumento da autonomia, a redução do consumo de energia e a diminuição da dependência de combustíveis fósseis.
Na área de defesa, esses ímãs têm importância estratégica ainda maior. Eles equipam sistemas de guiagem de mísseis, radares de alta precisão, aviões de caça e submarinos nucleares. O desempenho das forças armadas modernas depende diretamente da confiabilidade e da potência desses componentes, que garantem superioridade tecnológica em ambientes de combate. Daí a preocupação do DoD em reduzir a dependência da China para suprimento desses insumos.
Também na eletrônica de consumo, o NdPr tem usos indispensáveis. Smartphones, fones de ouvido, alto-falantes miniaturizados e discos rígidos dependem de ímãs permanentes para funcionarem em dimensões compactas sem perda de qualidade. A expansão do 5G, da inteligência artificial e da computação em nuvem apenas aumentará a demanda por esses materiais, consolidando-os como insumos críticos da economia digital.
Outro setor altamente dependente é o da robótica e automação industrial. Braços robóticos, drones e equipamentos de precisão utilizam ímãs de terras-raras em seus motores e sistemas de posicionamento. A competitividade das cadeias industriais avançadas, da manufatura de ponta à logística automatizada, depende do fornecimento estável desses componentes, sem os quais a produtividade cai e a dependência externa aumenta.
Por fim, os ímãs de NdPr também estão presentes em tecnologias médicas, como aparelhos de ressonância magnética e bombas de infusão de precisão. Isso mostra que a importância do insumo vai além da economia e da defesa, alcançando também a saúde pública. A política do DoD, ao garantir produção doméstica estável, busca não apenas assegurar vantagem militar e tecnológica, mas também garantir a soberania industrial em setores de interesse nacional mais amplos.
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD) estruturou um conjunto de instrumentos de política industrial para fortalecer a cadeia de suprimentos de terras-raras, em particular os ímãs permanentes produzidos pela MP Materials. No lado da oferta, o pacote envolve um investimento inicial de US$ 400 milhões em ações preferenciais da empresa, somado a um empréstimo de US$ 1 bilhão concedido por bancos privados como JPMorgan e Goldman Sachs. Esses recursos permitirão uma expansão significativa da capacidade produtiva de 3 mil para 10 mil toneladas anuais, num projeto que exige ainda a captação de US$ 350 milhões adicionais. O DoD também concedeu uma garantia de opção (warrant) que lhe permite ampliar sua participação acionária até 15%, tornando-se potencialmente o maior acionista da companhia, além de oferecer um empréstimo extra de US$ 150 milhões voltado à ampliação da planta de processamento de terras-raras.
Do lado da demanda, a peça central é o compromisso de preço mínimo (price floor commitment). A partir de 2025, o DoD garantirá que o neodímio-praseodímio (NdPr) produzido pela MP Materials seja comercializado a pelo menos US$ 110/kg — quase o dobro do preço atual de mercado — por um período de dez anos. Na prática, o governo assumirá o custo da diferença sempre que o preço estiver abaixo desse patamar, o que hoje significaria uma despesa próxima a US$ 300 milhões por ano. Em contrapartida, quando o preço estiver acima do piso, o DoD terá direito a 30% do ganho excedente. Essa arquitetura de contrato-diferença adaptado transfere riscos de mercado para o setor público, mas também assegura ao governo participação em lucros extraordinários.
Outro instrumento de desoneração de riscos é o compromisso de offtake, que garante a compra integral da produção da expansão planejada de ímãs por um período de dez anos. O DoD se compromete a pagar um preço equivalente ao custo de produção, assegurando ainda um nível mínimo de rentabilidade: US$ 140 milhões anuais em lucros operacionais (EBITDA). Caso a empresa consiga vender parte dessa produção a compradores comerciais, com anuência do governo, os lucros adicionais serão partilhados. Os primeiros US$ 30 milhões excedentes ficam com o DoD, e a partir daí os ganhos são divididos igualmente entre as duas partes.
Esse conjunto de medidas combina diferentes camadas de apoio: capital de risco público (equity), instrumentos financeiros híbridos (warrants), empréstimos subsidiados, contratos de preço e garantias de compra. Trata-se de uma arquitetura típica de política industrial orientada por missões, em que o Estado não apenas cria incentivos de mercado, mas também atua diretamente como investidor, comprador e segurador de risco. O objetivo declarado é reduzir a vulnerabilidade estratégica dos EUA em relação à China, que hoje domina o processamento e a manufatura global de ímãs de terras-raras.
O arranjo reflete uma mudança mais ampla na política econômica americana: a aceitação de que setores críticos à segurança nacional e à transição energética não podem depender exclusivamente de forças de mercado. A experiência com semicondutores, vacinas e baterias mostrou que contratos de longo prazo, investimentos públicos e garantias de demanda são instrumentos eficazes para viabilizar investimentos de alto risco e longo prazo. Ao aplicar esse modelo em terras-raras, o DoD busca construir resiliência industrial ao mesmo tempo em que estimula a atração de capital privado.
No entanto, esse tipo de política também levanta debates. Os custos fiscais são elevados e a exposição do Estado ao risco empresarial é significativa, já que o governo subsidia tanto o lado da oferta quanto o da demanda. Além disso, há críticas quanto ao potencial de captura regulatória, caso empresas privadas passem a depender excessivamente de contratos públicos. Ainda assim, como aponta a análise da FAS, o desenho inovador do programa — que combina mitigação de riscos com participação estatal nos ganhos futuros — pode servir de modelo para outras cadeias estratégicas, equilibrando segurança nacional com eficiência de mercado.
Ref: https://fas.org/publication/unpacking-dod-and-mp-partnership/

