Impulso fiscal de R$ 200 bilhões pressiona a inflação e limita o Copom
O Boletim Focus divulgado nesta manhã traz um recado claro: o mercado começou a jogar suas expectativas de inflação para 2028, depois que o Banco Central passou a adotar esse ano como novo horizonte de referência. As projeções para 2026 se estabilizaram em 5,12%, as de 2027 estão em 4,22% e as de 2028 aparecem agora em 3,8%. É um movimento que vem se consolidando nas últimas semanas.
Mas o grande destaque da economia neste momento são os estímulos correndo ao longo do ano. Do programa Desenrola ao financiamento para motoristas de aplicativo — antes voltado ao Uber e agora estendido também a caminhoneiros —, passando pelo programa de estímulo à mobilidade verde, pelo Gás do Povo, pela suspensão de reajustes na gasolina e pela isenção do Imposto de Renda. São vários pacotes que, somados, chegam a algo em torno de R$ 200 bilhões em estímulo à demanda agregada.
Do lado do consumo popular estão o Gás do Povo (R$ 5,3 bi) e o Move Brasil, que combina R$ 30 bilhões para taxistas e motoristas de aplicativo, R$ 21,2 bilhões na segunda fase voltada a ônibus e caminhões e mais R$ 4 bilhões para motos. O crédito às famílias aparece na liberação do saque-aniversário do FGTS (R$ 7 bi), no Desenrola Brasil 2.0 (R$ 15 bi) e no Desenrola Adimplentes (R$ 4 bi). A habitação recebe reforço de R$ 20 bilhões via Minha Casa, Minha Vida e Reforma Casa Brasil. No apoio à produção, entram o Brasil Soberano 2.0 (R$ 15 bi), o crédito para indústria 4.0 e bens de capital verde (R$ 10 bi), a linha para máquinas agrícolas (R$ 10 bi), o aporte no FGI para micro, médias e pequenas empresas (R$ 2 bi) e a ampliação do MEI (R$ 8,2 bi). Por fim, as desonerações de combustíveis — isenção de PIS/Cofins do diesel e subvenção aos importadores (R$ 30 bi), isenção do ICMS (R$ 2 bi) e despesas com combustíveis (R$ 16 bi) — completam o quadro, na esteira da chamada Guerra do Irã.
No fim do dia, o que temos é um impulso de demanda. A economia deve crescer cerca de 2% neste ano por conta desses programas — mas fica a sobrecarga fiscal, porque tudo isso tem custo, e a pressão inflacionária continua. Chegamos a agosto com a reunião do Copom no radar. Vejo espaço para mais um corte de 0,25 ponto, mas estamos próximos do fim do ciclo, tanto pelos estímulos quanto por uma inflação em trajetória que, embora não seja problemática, inspira cuidados. Minha leitura é que a expectativa para 2028 deve saltar para 4% nas próximas semanas, e aí o Banco Central fica numa posição muito desconfortável: com meta de 3%, não há como seguir cortando juros diante de expectativas em 4% para 2027 e 2028.


