O setor químico brasileiro está em alerta: cresce o temor de uma nova onda de fechamentos de fábricas, reflexo da crescente desindustrialização e da perda de competitividade diante de importações mais baratas . A crise interna é visível — setores têm reduzido sua produção e enfrentam ociosidade de até 30%, ao mesmo tempo em que importações avançam em média 9,5% ao ano, superando em muito a produção nacional (). Essa combinação pressiona empresas a fecharem plantas, demitirem profissionais e consolidarem o entorno em estados como São Paulo, onde o impacto tem sido mais severo.
Outro fator crítico é o aumento do “Custo Brasil”: energia cara, logística ineficiente, carga tributária alta e burocracia limitada. Esse cenário coloca as indústrias químicas em situação de desvantagem frente a países com políticas industriais agressivas e incentivos fiscais robustos . Além disso, a energia intensiva consumida por esse setor — especialmente na produção de commodities químicas — sofre diretamente com os custos elevados e a volatilidade do gás natural não aproveitado integralmente no território ().
A vulnerabilidade do setor é também uma consequência da erosão de capacidade industrial: desde 1990, o número de empregos na química já caiu mais de 58%, e há forte retração de linhas de produção desde os anos 2000 . A substituição crescente por importações não só pressiona o parque industrial, como também reduz a resiliência da cadeia de suprimentos: um alerta especialmente latente após crises como a pandemia de Covid-19, que expôs a dependência externa ().
Por outro lado, o Brasil detém duas fortes vantagens competitivas ainda subexploradas: o gás natural do pré-sal e uma matriz energética limpa, rica em fontes renováveis. Esses insumos poderiam ser alavancas poderosas para a indústria química nacional, se acompanhados de investimentos em infraestrutura e políticas coordenadas do governo, como propostas pela ABIQUIM e BNDES . O desenvolvimento de cadeias vinculadas ao gás natural e etano, por exemplo, poderia reativar unidades de produção hoje ociosas ou dependentes de importações.
Ainda, a transição global para economia circular e química verde apresenta oportunidades únicas: produção de bioprodutos, energias renováveis e soluções para saneamento demandam PVC, cloro, metanol e outros químicos verdes . Integrar essa agenda de sustentabilidade com estímulos tributários, financiamento facilitado e projetos de P&D — pilares defendidos em relatórios setoriais — poderia atrair investimentos greenfield e revigorar a competitividade .
Em resumo, o possível fechamento de fábricas químicas não é apenas um reflexo de questões conjunturais, mas sinônimo de um problema estrutural: o Brasil perdeu ritmo de industrialização por falta de políticas ativas, infraestrutura inadequada e alta dependência de manufatura importada. Sem ação estratégica e integrada — desde incentivos ao gás natural até estímulos à química verde — o risco é uma hecatombe industrial com impactos no emprego, inovação e segurança econômica nacional.


Enquanto nossa elite não quiser inserir o Brasil nas cadeias de produção tecnológicas, nosso destino tende mesmo a ser agrário e extrativo.