No universo retratado pela série Frontier da Netflix a fábrica Carruth Co. de Montreal aparece já transformando peles em produtos de maior valor agregado, como chapéus e casacos. Esse detalhe é importante porque mostra que, ainda no século XVIII, já havia sinais de uma industrialização incipiente em certos centros coloniais da América do Norte. A presença de manufatura ligada diretamente à exploração de recursos naturais marca uma diferença fundamental entre cidades de comércio puro e aquelas que deram passos rumo à produção mais sofisticada.
Em Montreal, essa industrialização embrionária estava ligada ao comércio de peles da Baía de Hudson e James Bay. Os franceses e, depois, os britânicos entenderam rapidamente que o valor econômico não estava apenas na pele bruta, mas também na capacidade de transformá-la em artigos de moda altamente demandados na Europa. Assim, Montreal consolidou-se como um centro de intermediação e também de produção, conectando o mundo indígena com os mercados globais.
Nos casos de Boston e Nova York, a dinâmica foi semelhante em termos de aproveitar as redes atlânticas, mas com maior diversificação econômica. Boston, já no século XVII, possuía oficinas de curtume, marcenaria e construção naval. A abundância de madeira e a proximidade com as rotas atlânticas fizeram da cidade um polo de manufaturas simples, que atendiam tanto ao consumo local quanto à exportação. O couro e o vestuário tiveram espaço, mas foram ofuscados pela forte presença da construção naval e da metalurgia leve.
Nova York, por sua vez, herdou uma posição privilegiada do período holandês. A cidade combinava comércio internacional e atividades artesanais, com destaque para a confecção de roupas, sapatos e instrumentos de uso cotidiano. Diferentemente de Montreal, onde a manufatura estava ligada diretamente ao ciclo das peles, Nova York diversificava desde cedo, atraindo imigrantes qualificados e pequenas oficinas. Esse caráter híbrido — entre porto mercantil e núcleo manufatureiro — ajudou a consolidar sua ascensão econômica no século XVIII.
O contraste essencial é que, enquanto Montreal dependia fortemente da dinâmica do comércio de peles e da intermediação com povos indígenas, Boston e Nova York construíram bases mais amplas de manufatura e comércio marítimo. Essa diversidade de atividades econômicas explica em parte por que as colônias inglesas da Nova Inglaterra e do Médio Atlântico enriqueceram de maneira mais acelerada e estável que os enclaves franceses do Canadá.
A industrialização incipiente, portanto, não foi exclusiva de Montreal. Boston e Nova York também abrigavam oficinas e pequenas fábricas, mas sua lógica de crescimento foi distinta: não se limitaram a um único recurso natural, e sim criaram cadeias produtivas mais diversas. Essa estratégia permitiu acumulação de capital, desenvolvimento urbano mais intenso e uma classe mercantil e manufatureira mais robusta.
Em síntese, a Carruth Co. de Montreal simboliza um primeiro passo rumo à industrialização na América do Norte, mas a experiência de Boston e Nova York mostra como a diversificação produtiva, associada ao comércio atlântico, foi decisiva para transformar esses centros em potências urbanas e econômicas. Montreal brilhou no ciclo das peles, mas Boston e Nova York construíram as bases para se tornarem, de fato, motores da economia americana nos séculos seguintes.

