Inflação cede no Brasil com alívio nos preços de atacado, mas pressões persistem nos EUA

Destaque para a divulgação do IGP-M de março, que apresentou uma deflação de 0,34%. É uma boa notícia para o Banco Central no combate à inflação. Em fevereiro, o IGP-M havia subido 1,03%, então essa queda é significativa. Aliás, fazia tempo que não víamos uma deflação no IGP-M. A principal explicação está na deflação do IPA (Índice de Preços por Atacado), que representa 60% do IGP. Quando o IPA cai, arrasta o índice geral para baixo. Em fevereiro, o IPA havia subido 1,17%, e agora houve queda nos preços de alimentos. Isso está ligado ao aumento de oferta: quando o preço de um produto, como o ovo, sobe quase 20%, há um incentivo imediato para que produtores aumentem a oferta. Um exemplo disso é a compra, por parte de uma empresa brasileira, de uma produtora de ovos nos Estados Unidos por um valor na casa de bilhões de dólares.

Além disso, a safra brasileira deve ser 10% maior este ano, batendo recorde novamente. Outro fator importante é o câmbio, que voltou à casa dos R$ 5,70, influenciando a conversão dos preços internacionais (traded goods) para reais. Já se percebe um efeito da apreciação cambial em alguns preços específicos. Por outro lado, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) registrou alta de 0,80% e responde por 30% do IGP. É um peso relevante. Ontem, o IPCA-15 veio na casa de 0,65%, mostrando que os preços ao consumidor seguem pressionados. A boa notícia é que os preços no atacado estão cedendo. O ideal seria o câmbio voltar para abaixo de R$ 5,50 — isso, sim, ajudaria o Banco Central no combate à inflação. No fim do dia, a disparada dos preços dos alimentos está muito ligada à desvalorização cambial e a fatores climáticos.

Outro dado importante foi a taxa de desemprego, que subiu para 6,8%. Há componentes sazonais, mas ainda assim é uma alta relevante em relação aos 6,1% registrados no trimestre encerrado em janeiro. Esse aumento sugere um arrefecimento do mercado de trabalho brasileiro, o que pode contribuir para a desaceleração da inflação, especialmente de serviços. Claro que não é uma boa notícia em termos sociais, mas pode ajudar no controle de preços. O rendimento médio real chegou à máxima histórica de R$ 3.378. Ainda é um valor baixo: essa é a média recebida por cerca de 101 milhões de brasileiros. Mas é um avanço, considerando que, logo após a pandemia, esse valor havia caído para R$ 2.899. É a quarta alta consecutiva anual.

Nos Estados Unidos, foi divulgado o índice de inflação medido pelo PCE (Personal Consumption Expenditures), o deflator do PIB. Trata-se de um indicador mais amplo, baseado nas contas nacionais, e o preferido do Federal Reserve. O índice cheio veio em linha com as expectativas, rodando a 0,3% na leitura mensal. O núcleo (core), que exclui alimentos e energia, subiu um pouco para 0,4% no mês. Em termos anuais, o índice cheio está em 2,5% e o núcleo acelerou para 2,8%, o que não é uma boa notícia. Apesar do resultado estar próximo das expectativas, o fato de o núcleo ter acelerado mostra que a inflação não está disparando, mas também não está caindo. O supercore — que exclui também o componente de habitação e foca em serviços puros — também mostrou alta. Isso indica que a tarefa do Banco Central americano não será fácil. Na prática, isso significa que dificilmente haverá corte de juros no primeiro semestre. Inclusive, aumentou a chance de alta de juros. James Bullard, ex-diretor do Fed e hoje analista, comentou em entrevista que as expectativas de inflação para os próximos dois a três anos, medidas pelos TIPS (títulos indexados à inflação nos EUA, semelhantes às NTN-B no Brasil), estão girando em torno de 3%. Ou seja, o mercado projeta inflação acima da meta de 2%, o que acende um sinal de alerta.

Bullard, que tem adotado uma postura mais dura em relação à política monetária nos últimos anos, defende que o Fed deve esperar mais antes de cortar juros. Em sua visão, o mercado de trabalho está superaquecido, abaixo da chamada taxa natural de desemprego, o que pressiona a inflação.

Portanto, o dado do PCE desta manhã é motivo de preocupação. O cenário, por enquanto, aponta para um possível alívio inflacionário no Brasil — com IGP-M em deflação e mercado de trabalho um pouco mais frouxo — e uma situação mais complexa nos Estados Unidos, com pressão inflacionária persistente.

Resumo Executivo – Relatório Firmus 2025T1

  • Inflação em alta nas expectativas das empresas: A mediana da expectativa para o IPCA de 2025 subiu de 4,2% para 5,5%, e para 2026, de 4,0% para 4,5%. Para 2027, a expectativa foi de 4,0%, indicando persistência inflacionária no horizonte relevante.

  • Crescimento do PIB estável, mas moderado: A expectativa para o crescimento do PIB em 2025 permaneceu em 2,0%, refletindo cautela quanto à atividade econômica.

  • Desvalorização esperada do câmbio: A mediana para a taxa de câmbio em seis meses subiu de R$ 5,70 para R$ 6,00, revelando maior percepção de risco cambial entre os empresários.

  • Sentimento empresarial piora: Houve deterioração significativa na percepção da situação econômica atual, com aumento da frequência de respostas “discretamente negativa”.

  • Pressão sobre custos e margens: Mais de 80% das empresas esperam alta superior a 4% nos custos de mão de obra e insumos, enquanto as expectativas de repasse de preços e de margem de lucro diminuíram, indicando pressão sobre a rentabilidade no curto prazo.

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