Nos últimos anos, a dinâmica dos preços de alimentos no Brasil tem se mostrado um dos fatores mais relevantes para o bem-estar da população e para a própria popularidade do governo. A alta de preços no domicílio afeta de forma desproporcional os mais pobres, pois a alimentação é o item de maior peso no orçamento familiar.
De acordo com dados do IBGE/PNAD, cerca de 47% dos brasileiros têm renda per capita de até 1,5 salário mínimo – o que corresponde a aproximadamente 100 milhões de pessoas. Para esse grupo, a participação da alimentação no orçamento chega a 23% a 25%, contra 14% a 16% para as famílias de maior renda. Isso significa que uma alta de apenas 5% nos preços de alimentos no domicílio pode gerar um impacto direto de cerca de 1,2 ponto percentual na inflação percebida pelos mais pobres (contra 0,8 p.p. na média da população).
Esse efeito é particularmente importante em períodos pré-eleitorais. A aprovação presidencial no Brasil é historicamente sensível à inflação de alimentos, e uma aceleração de preços pode aumentar a percepção de perda de poder de compra, afetando a confiança no governo. Em outras palavras, quando a comida sobe, a política sente — e sente rápido.
Outro ponto relevante é a relação entre inflação e segurança alimentar. Em 2022, o Brasil tinha cerca de 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, segundo o IBGE/PENSSAN. Dois anos depois, esse número caiu para cerca de 18 milhões. Uma parte desse resultado se deve à política monetária: o Banco Central elevou a taxa Selic para conter a inflação entre 2021 e 2023, reduzindo a alta de alimentos de 14% ao ano para menos de 3% em 2024. Com preços mais estáveis, programas sociais como o Bolsa Família e o aumento real do salário mínimo tiveram efeito mais robusto, ajudando a recuperar o poder de compra das famílias e permitindo que o país saísse novamente do mapa da fome.
É importante destacar, porém, que o mérito não é exclusivo do Banco Central. A redução da fome foi fruto da combinação de política monetária responsável, política social bem calibrada e crescimento econômico que elevou emprego e renda. O BC criou o ambiente de estabilidade de preços, mas foram os programas de transferência de renda e os reajustes salariais que garantiram a melhora efetiva no acesso aos alimentos.
Portanto, ao olharmos para 2026, o risco de uma nova aceleração dos preços de alimentos deve ser monitorado com atenção redobrada. Afeta de forma mais intensa metade da população brasileira e tem consequências diretas para a percepção de bem-estar e para a estabilidade política. Manter a inflação sob controle continua sendo uma das missões centrais para sustentar a redução da pobreza e consolidar os avanços sociais recentes.


