O cenário macroeconômico brasileiro nesta semana chegou carregado de dados que confirmam a aceleração simultânea da inflação e da atividade econômica — combinação que aperta o Banco Central e reaviva o ciclo vicioso que o país conhece bem. As expectativas de mercado para o índice cheio de inflação já estão em 5,09% para o ano — acima do teto da banda da meta, fixado em 4,5%. O mercado precifica o IPGM para o ano em torno de 6%, sinal de que as expectativas seguem desancoradas.
O PIB do primeiro trimestre foi a grande surpresa da semana passada. A economia cresceu 1,1% no período, ante 0,3% no trimestre anterior, e 1,8% na comparação com o mesmo período do ano passado. Os motores foram os de sempre: consumo das famílias aquecido, crédito em expansão e transferências de renda robustas. O conjunto de estímulos fiscais do governo — incluindo a isenção do IR para rendas de até R$ 5.000 — sustenta a demanda interna. Há, contudo, um alívio pontual no horizonte. A alta do diesel pela Petrobras foi praticamente neutralizada pela subvenção anunciada pelo governo, o que reduz a pressão sobre o salário real e alivia um freio que pesava sobre o consumo. A boa notícia inflacionária, porém, vem acompanhada de um efeito colateral: a economia segue superestimulada, crescendo a um ritmo anualizado superior a 4% ao ano.
Nesse contexto, o espaço para novos cortes de juros praticamente desapareceu. O Banco Central deve encerrar o atual ciclo de afrouxamento, se é que ainda fará mais um ou dois cortes residuais. O problema estrutural, porém, é mais profundo do que a política monetária: com a taxa de investimento em apenas 16,5% do PIB, o país não reúne condições para sustentar um processo real de decolagem econômica.
O aquecimento da demanda já começa a vazar para o setor externo. As importações subiram 4,4% — acima do esperado —, puxadas pela atividade mais forte, enquanto as exportações aceleraram em menor ritmo. A queda no preço do petróleo ajuda pelo efeito-preço nas importações brasileiras, mas o efeito-quantidade — mais demanda, mais importação — prevalece. O resultado é a reabertura do buraco externo, velha conhecida do ciclo econômico latino-americano.
O roteiro é repetido: a economia acelera, a inflação aparece, o Banco Central sobe os juros, o investimento recua, o crescimento perde fôlego — e o ciclo recomeça. Não adianta culpar apenas a autoridade monetária. O arranjo macroeconômico brasileiro como um todo — fiscal expansionista, câmbio apreciado, baixo investimento — reproduz estruturalmente essa armadilha. Há pessoas competentes tocando a agenda de política industrial no governo, mas os números ainda não refletem a transformação produtiva necessária.
Os dados do primeiro trimestre deixam o recado com clareza: o país cresce, mas cresce sobre bases frágeis, dependente de crédito e consumo, sem o adensamento produtivo que permitiria romper esse ciclo de uma vez por todas.


O gráfico mostra três fases bem distintas:
Expansão (2003–2013) — as barras em azul escuro marcam o ciclo de boom de commodities e crédito, com a FBCF saindo do fundo histórico de 15,1% em 2003 e chegando ao pico de 22,8% em 2013, puxada pelo PAC, BNDES e pela conjuntura favorável.
Colapso (2014–2020) — barras em vermelho escuro. A combinação de crise fiscal, recessão 2015–2016 e depois pandemia derrubou a taxa de investimento para a casa dos 15–16%, os menores valores desde a crise de 2002–2003.
Recuperação parcial (2021–2024) — barras em azul mais claro. Houve rebound em 2021 (17–18%), mas a taxa não voltou aos patamares de 2010–2014. O 2024 fecha em torno de 17,4%.
Vale o contraste estrutural: a média de 18,9% da série é uma das mais baixas entre economias emergentes comparáveis — China mantém acima de 40%, Índia em torno de 29–30%, Coreia do Sul em 28–30%. É um dos principais constrangimentos à complexidade econômica que documentamos no paper.


