Poucos países apresentam uma distância tão grande entre seu potencial geográfico e produtivo e sua realidade logística quanto o Brasil. Apesar de vantagens naturais evidentes — abundância de recursos, posição estratégica e escala continental —, o investimento em infraestrutura oscilou por décadas e, em muitos momentos, esteve perigosamente aquém do necessário para sustentar o crescimento econômico. Entre 2013 e 2023, o investimento público em infraestrutura caiu 45%, enquanto o setor privado buscou compensar com alta de 20%. Ainda assim, em 2023, apenas 22% do total investido em infraestrutura veio do setor público. Foi uma década marcada pelo recuo do Estado e pela insuficiência da resposta privada.
Esse cenário começou a mudar em 2024, com a perspectiva de um crescimento de 15% nos investimentos em infraestrutura, que devem alcançar R$ 259 bilhões, sendo quase R$ 200 bilhões oriundos do setor privado. Parte dessa inflexão se deve ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), que prevê R$ 1,7 trilhão em investimentos até 2026. Ao contrário de versões anteriores, o novo PAC tem se estruturado com maior articulação entre o setor público e privado, mais foco em sustentabilidade e atenção às exigências ambientais, sociais e climáticas que moldam o cenário global. O transporte e a energia lideram a retomada: em 2024, os investimentos em transporte e logística devem alcançar R$ 63 bilhões (alta de mais de 50% em relação a 2023), enquanto o setor elétrico deve atingir R$ 119 bilhões, puxado por leilões de transmissão e pela demanda crescente por energia renovável.
Outro setor emblemático da nova fase é o saneamento. Aprovado em 2020, o novo marco legal transformou a lógica de investimentos nesse setor historicamente negligenciado. Entre 2020 e 2024, os investimentos em água e esgoto dobraram, saltando de R$ 17 para R$ 34 bilhões anuais. Trata-se de uma agenda que combina modernização da infraestrutura com impacto social, geração de empregos e ganhos em saúde pública — além de alinhar o país aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Esse avanço coincide com uma nova corrida global por infraestrutura. Em um mundo marcado por disrupções geopolíticas e reconfiguração das cadeias produtivas, países com capacidade de entrega, conexão logística e segurança energética ganham vantagem estratégica. Nesse contexto, o Brasil desponta como destino preferencial de grandes fundos, bancos multilaterais e plataformas bilaterais, como o Fundo China-Brasil, especialmente em projetos ferroviários, portuários e energéticos.
Essa retomada representa também uma virada institucional e histórica. Durante os anos 1970, o Brasil construiu parte essencial de sua infraestrutura por meio de empresas estatais, como Eletrobras e Telebras, com forte apoio do financiamento externo. Embora tenha promovido a industrialização, esse modelo entrou em colapso diante da crise da dívida e da hiperinflação nos anos 1980, levando a um longo período de retração do investimento público. Foi apenas a partir das últimas décadas, e com avanços recentes nos marcos legais de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), que o país começou a edificar um novo modelo — mais sustentável, escalável e financeiramente viável.
Hoje, com maior segurança jurídica, planejamento estratégico, instrumentos financeiros como os FI-Infra e mecanismos de garantia, o Brasil volta a ser capaz de coordenar grandes projetos sem repetir os desequilíbrios do passado. O Estado retoma seu papel de articulador e indutor, enquanto o setor privado assume protagonismo na execução e financiamento. Infraestrutura deixa de ser um gargalo e volta a ser um vetor de crescimento. Mais que base física da economia, ela se torna um alicerce de ambição internacional: ao investir em conectividade, eficiência logística e segurança energética, o Brasil se reposiciona no cenário global e transforma seu atraso histórico em vantagem estratégica.
Livro Azul Abdib
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