IPCA acima do esperado dificulta trabalho do BC

O IPCA de fevereiro divulgado agora pelo IBGE veio acima do esperado, registrando 0,70%, enquanto as projeções do mercado estavam entre 0,55% e 0,60%. Houve também uma aceleração em relação a janeiro, quando o índice foi de 0,33%. Na prática, esse resultado já era parcialmente antecipado, porque o IPCA-15 havia vindo perto de 0,80%, sinalizando um mês mais pressionado.

A boa notícia aparece na comparação em 12 meses. A inflação caiu de 4,44% para 3,81%, principalmente porque saiu da base de comparação um IPCA muito alto de fevereiro do ano passado, que havia sido próximo de 1,7%. Janeiro, fevereiro e março costumam ser meses difíceis por causa da sazonalidade, especialmente em alimentos, então essa queda da inflação acumulada em 12 meses é um sinal positivo. Com 3,81%, o índice está bem abaixo do teto da meta, lembrando que a meta central é 3% com banda de tolerância.

Nos dois primeiros meses de 2026, o IPCA acumulado já está em 1,03%, o que mostra como o início do ano costuma ser inflacionário. A difusão inflacionária também melhorou um pouco, caindo de 63,9% para 61,3%, indicando que o aumento de preços ficou um pouco menos espalhado pela economia.

Entre os principais destaques, o grande vilão foi educação, que tradicionalmente sobe muito em fevereiro por causa dos reajustes de mensalidades escolares. Outro ponto de pressão foram as passagens aéreas, que subiram 11,4%. Além disso, serviços em geral continuam rodando acima de 1% ao mês, o que segue sendo um ponto de atenção para o Banco Central.

Portanto, o quadro é misto: por um lado, a inflação em 12 meses melhorou, mas, por outro, o resultado mensal veio acima do esperado, o que torna o cenário um pouco mais desafiador. Para quem quer levar a inflação para 3%, começar o ano com dois meses acumulando cerca de 1% já mostra o tamanho da dificuldade.

Outro fator importante no cenário é o conflito no Oriente Médio, que continua bastante grave. O petróleo voltou a se aproximar de US$ 100, com novos ataques na região e declarações de autoridades iranianas indicando continuidade das tensões e bloqueios no Estreito de Ormuz. Um petróleo acima de US$ 90 tende a ser inflacionário para os Estados Unidos, para o Brasil e para a economia global.

Na semana que vem temos reunião do Copom, e o mercado já começa a considerar um primeiro corte de juros de 0,25 ponto percentual. O varejo divulgado ontem veio um pouco mais forte que o esperado, sugerindo alguma resiliência da atividade econômica. Ao mesmo tempo, o cenário externo ficou mais complicado com o petróleo pressionado.

Assim, o mais provável é que o Banco Central inicie o ciclo de afrouxamento monetário de forma bastante gradual, começando com passos de 0,25 ponto após o IPCA de hoje ter vindo acima do esperado.

Por fim, vale notar que o real tem se comportado relativamente bem, em parte porque o Brasil acaba se beneficiando de preços mais altos do petróleo. O país produz hoje quase 4 milhões de barris por dia e se tornou um dos cinco maiores produtores do mundo. Nos anos 1990 o Brasil era praticamente irrelevante no mercado global de petróleo, e a combinação de Petrobras e pré-sal mudou completamente essa posição.

Portanto, o conflito no Oriente Médio tem efeitos inflacionários, mas também traz benefícios para o Brasil, como maior arrecadação, melhora na balança comercial e ganhos para o setor de petróleo. É um cenário com dois lados da moeda.

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