KC-390, o cargueiro de guerra brasileiro que nasceu graças ao apoio do governo (PAC)

*escrito com Gustavo Rojas

A dominância dos governos como clientes preponderantes no segmento militar é de grande importância no mundo todo. Os contratos de compras de aeronaves militares geralmente incluem contratos de “offsets”, contrapartidas em termos de transferências de tecnologias destinadas aos governos compradores. Estas condições diferenciadas do mercado de aeronaves militares podem reduzir as barreiras para o ingresso de novas empresas de países emergentes com forte respaldo governamental dentro das cadeias globais de valor. Estas características da indústria são importantes para entendermos as perspectivas do Projeto KC-390 da Embraer. A Embraer Defesa e Segurança foi criada em 2011 como o braço da empresa encarregado do desenvolvimento de projetos militares. Entre estes, encontra-se a principal aposta da empresa: o cargueiro militar KC 390. O projeto é fruto de contrato assinado em 2009 entre a Força Aérea Brasileira e a EMBRAER. Os investimentos requeridos para o seu desenvolvimento integraram o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), garantindo priorização em sua execução orçamentária.

Com o KC-390, a Embraer busca ocupar um espaço importante no mercado mundial de transportes militares de 20 toneladas, passando a competir diretamente com empresas como a estadounidense Lockheed Martin, a européia AirBus e a ucraniana Antonov. Busca se inserir nesse novo nicho de mercado a partir de um modelo de baixo custo aquisitivo e operacional. Este elevado grau de competitividade apóia-se na ampla utilização de componentes da tradicional família de jets regionais da empresa. O custo de desenvolvimento do projeto custou à FAB apenas R$ 5 bilhões, valor correspondente a apenas um décimo quando comparado com os € 20 bilhões gastos pela Airbus no desenvolvimento de seu cargueiro A400M Atlas. O mercado potencial do KC-390 é extremamente atrativo, pois em muitos países do Ocidente a vida útil de seus cargueiros se aproxima do término. Os novos modelos do Hércules e do AirBus A400, seus concorrentes diretos, possuem custos significativamente superiores e a aquisição de cargueiros russos ou orientais é descartada por ampla parcela das Forças Armadas do Ocidente devido ao seu elevado custo de adaptação. Adicionalmente, a aeronave diferencia-se de seus competidores em outros pontos: 1) é um avião com propulsão a turbina, não a hélice como a maioria dos competidores dessa categoria, reduzindo o tempo de vôo das aeronaves; 2) menor custo e tempo de manutenção; 3) utiliza tecnologias e equipamentos conhecidos e disponíveis no mercado, reduzindo custos e riscos. A perspectiva da aquisição do segmento de aviação civil da Embraer pela Boing significaria, em termos simples, uma ruptura com o ciclo de difusão das inovações geradas no segmento militar e transferidas posteriormente, a baixo risco e maior escala, ao segmento civil. A complementariedade de ambos segmentos é a base da inovação da indústria aeronáutica e o KC-390, um passo inédito do Brasil na aquisição de conhecimentos para a construção de aeronaves de maior porte.

  • notas de Vinicius Teixeira

O A-400 está em outra faixa de peso/capacidade. Os concorrentes diretos são o C-130J, que é uma aeronave modernizada, mas conta com 60 anos de projeto e 4 motores, o que implica em custos maiores de manutenção ao longo da vida útil, e uma aeronave russa ainda em desenvolvimento, proposta para ser feita em cooperação com a índia. O fato do KC ter motores turbofan pode ser uma vantagem em alguns cenários mas implica tbm em restrições em outros, como o pouso em pistas não preparadas e na neve, coisa que o C-130 executa sem muitos problemas. Porém o KC da embraer pode reabastecer aeronaves voando mais rápido, chegar mais rápido, mais longe e com maior carga. Vai depender muito do operador e da doutrina de sua utilização. Tem funções que o C-130 não tem. A retirada do portfólio civil da Embraer pela Boeing, deixando apenas a área de defesa no Brasil certamente vai implicar na inanição desse segmento e falta de continuidade em projetos bancados pela FAB, dada a incerteza de que a tecnologia fique no país.

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