Malasia e Chile na luta para escapar da armadilha da renda media

*escrito com Felipe Augusto
Artigo importante para o debate sobre estratégias de desenvolvimento. Autores afirmam que Chile e Malásia estariam se aproximando da renda alta, juntando-se aos poucos países que chegaram lá nas últimas décadas, com um modelo distinto dos demais.
Recorda-se que atingir a alta renda tem sido difícil. Um dos parâmetros mais utilizados é um percentual sobre a renda per capita americana. Os autores utilizam 40%, mesmo critério de um estudo do Banco Mundial que mostrou que apenas 13 países atingiram alta renda desde 1960
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Basicamente, são países que podem ser enquadrados em três grupos: (i) países ricos em recursos minerais; (ii) países que se beneficiaram com a integração à União Europeia; e (iii) os tigres asiáticos. Outros estudos mais recentes, como o do FMI (2019), vão no mesmo sentidoImage
A estratégia dependente de recursos minerais é considerada vulnerável à flutuação de preços das commodities e não sustentável no longo prazo. A dos tigres exigiria políticas industriais ambiciosas e arriscadas. Os autores apontam que Chile e Malásia superaram a barreira dos 40% e, portanto, estariam abandonando a chamada armadilha da renda média. E a estratégia seria a adição de valor e a diversificação DENTRO de setores baseados em recursos naturais
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Nesse contexto, os setores-chave para a ascensão desses países não teriam sido seus setores tradicionalmente líderes em exportações. O setor de eletrônicos é o setor líder da Malásia (38% das exportações em 2017), e o de mineração é o do Chile (55% das exportações). Esses setores seriam dominados por multinacionais, que geraram poucas ligações com empresas locais e baixa inovação. Os setores-chave seriam produtos derivados do petróleo, óleo de palma e borracha no caso malaio, e salmão, vinho, frutas e silvicultura no caso chileno. Setores baseados em recursos naturais, mas que conseguiram, com apoio do Estado, adicionar valor e se diversificar dentro de cada um dos setores. Em comum entre esses setores estaria a predominância de empresas locais, o que teria facilitado a acumulação de capacidade tecnológica. As políticas adotadas foram variadas, desde as mais comuns como apoio a P&D, passando por conteúdo local (petróleo), nacionalizações (óleo de palma e borracha), proibição de exportação (madeira) e programas intergovernamentais de transferência de tecnologia (salmão e frutas). Os autores mediram a importância desses setores pela performance exportadora. Os do Chile atingiram 28% das exportações e o superávit comercial vem crescendo desde os anos 1990, atrás apenas da mineraçã. Os da Malásia atingiram 21%, com superávit superior ao de eletrônicosImageImage
E cedo ainda para cravar a ascensão da Malásia e, mais ainda, do Chile ao grupo de países ricos. O Chile depende bem mais de recursos minerais do que a Malásia, e seu desempenho recente esteve muito ligado ao preço do cobre e à demanda chinesa.
Os autores não são muito convincentes quando atribuem a suposta ascensão chilena majoritariamente aos setores citados. Artigo do FMI (2019) considera inclusive que Chile e Malásia adotam estratégias diferentes, sendo o Chile mais próximo dos países ricos em recursos minerais
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Aliás, o Chile é o país da América que possui mais recursos minerais per capita, segundo o Banco Mundial. O modelo dependente de exportações de cobre é vulnerável e sujeito a retornos decrescentes e graves danos ambientais
Para alguns analistas, o desempenho recente do país não foi uma ascensão, mas uma recuperação (parcial) do seu patamar histórico de renda
medium.com/@pseudoerasmus…

Dados mais recentes, que coincidem com a desaceleração chinesa, mostram que o Chile parece estar voltando à armadilha

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Entre os dois, a Malásia parece ter mais chances. Apresenta convergência consistente de renda desde o início dos anos 2000. Mas a diferença parece estar no setor líder (eletrônicos), muito mais complexo do que o chileno (mineração)
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A intensidade tecnológica de todos os setores mencionados é muito menor do que a dele

P&D/VA (%): (investimentos em pesquisa sobre valor adicionado) por setor

Eletrônicos: 24,05
Borracha: 3,58
Papel: 1,58
Alimentos e bebidas: 1,44
Produtos de petróleo: 1,17
Mineração: 0,8
Produtos de madeira: 0,7
Agricultura, silvicultura e pesca: 0,27

ImageMas mesmo a Malásia apresenta dificuldades de elevar a produtividade e a inovação, cruciais ao atingimento e à manutenção da renda alta. E isso parece decorrer das limitações do setor de eletrônicos malaio, apontadas pelos autores, e que merecerão um fio à parte no futuro.
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