Mercado de trabalho aquecido e preços de serviços a 6%: o “núcleo duro” da inflação brasileira em 2025

O IPCA fechou 2025 em 4,26%, dentro do teto da meta (4,5%). Foi, sem dúvida, uma boa notícia para a economia. 

Mas quando abrimos o número, aparece o ponto que mais incomoda o Banco Central: a inflação de serviços acelerou e encerrou o ano rodando em 6,01% (no agregado de serviços). 

E por que serviços importam tanto? Porque eles são a parte mais “inercial” da inflação. Serviços carregam salários, demanda doméstica, ocupação e repasse mais lento. Em outras palavras: quando serviços estão pressionados, não adianta muito comemorar um IPCA comportado por algum alívio pontual em itens voláteis. O sinal para a política monetária fica mais delicado.

A engrenagem por trás: emprego forte, serviços fortes

A inflação de serviços em 2025 conversa diretamente com um mercado de trabalho muito aquecido. A PNAD Contínua chegou a registrar taxa de desemprego de 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025, mínima histórica da série. 

Pelo lado do emprego formal, o Novo Caged também seguiu positivo: o país acumulou 1,8 milhão de empregos gerados em 2025 até outubro, segundo divulgação oficial. 

Esse pano de fundo sustenta consumo, mantém a rotação do setor terciário elevada e dá poder de repasse para muitos serviços — do aluguel e condomínio aos serviços pessoais, passando por alimentação fora do domicílio. É exatamente aí que mora a preocupação: serviços “colam” na inflação e demoram a ceder.

O Focus melhorou, mas não resolve o “miolo”

O Relatório Focus desta semana trouxe um pequeno alívio nas expectativas: o mercado reduziu a projeção do IPCA para 2026 para 4,05%, mantendo 2027 em 3,80% (e 2028 em 3,50%). 

Isso ajuda, claro. Expectativa melhor é um ingrediente necessário para desinflação. Mas não é suficiente quando a “parte doméstica” do IPCA segue firme, com serviços a 6% e trabalho apertado.

Por que os dados desta semana importam tanto

É aqui que entra a agenda de atividade. Nesta semana, sai uma bateria de indicadores que ajuda a “trocar o quadro” — ou confirmar a fotografia de aquecimento:

Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE (referência novembro/2025).  Pesquisa Mensal de Comércio (PMC / vendas no varejo) do IBGE (novembro/2025).  IBC-Br, proxy mensal do PIB divulgada pelo Banco Central, fechando a semana. 

Se esses dados vierem fortes, reforçam o diagnóstico: demanda doméstica ainda quente, serviços pressionados e BC sem “pressa” para afrouxar. Se vierem mais fracos, começam a construir o cenário que o Copom quer ver: desaceleração gradual, hiato abrindo e serviços perdendo tração.

E os juros?

Com serviços rodando a 6% e mercado de trabalho apertado, o BC tende a ser cauteloso. A leitura mais realista é: corte de juros só quando houver evidência consistente de arrefecimento da atividade e, principalmente, desaceleração do componente de serviços. Não é discussão de “um dado”; é de tendência.

Por isso, mais do que torcer por um número bom, o jogo agora é acompanhar sequência: PMS, PMC, IBC-Br e, adiante, os próximos indicadores do mercado de trabalho e de núcleos. O IPCA cheio fechou bem 2025; o desafio é fazer o “miolo” — serviços — voltar para um patamar compatível com a meta.

No fim, 2026 começa com uma mensagem clara: a inflação brasileira não está mais nos choques; está no aquecimento doméstico. 

Deixe uma resposta