Mercado eleva inflação esperada em 2026 a 5,1% e juros longos disparam

O Boletim Focus desta segunda-feira trouxe projeções atualizadas que reforçam um cenário mais desafiador para a economia brasileira. A mediana das estimativas para o IPCA de 2026 subiu para cerca de 5,1%, em mais uma rodada de revisão para cima, e a inflação esperada para 2027 já se acomoda acima de 4%. A novidade ficou por conta do crescimento: a projeção para o PIB deste ano também acelerou, para 1,9%, em linha com os dados que vêm sendo divulgados. E os dados, de fato, surpreenderam. O PIB do primeiro trimestre veio mais forte do que o previsto, e os indicadores de atividade que começam a sair referentes a abril seguem apontando uma economia aquecida. O quadro é claramente distinto do que se imaginava no início de 2026: a economia está bem mais robusta do que o esperado.

A esse cenário soma-se o choque do petróleo, que voltou a ganhar força com a escalada das tensões no Oriente Médio — os ataques de Israel contra o Irã e a pressão dos Estados Unidos elevaram novamente a temperatura geopolítica. As cotações se acalmaram nas últimos horas, mas o Brent ronda os US$ 95 o barril, numa história que parece não ter fim. A combinação de economia aquecida com petróleo mais caro praticamente rompe o teto da banda de inflação para este ano, com um número pior, inclusive, do que o IPCA de 2025, que fechou em 4,26%.

Na próxima semana teremos as reuniões do Copom e do Federal Reserve — a famosa “super quarta”. Nos Estados Unidos, parece dado que não haverá mais cortes de juros neste ano; a discussão agora é a possibilidade de alta. Será, ainda, a primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, novo presidente do Fed. Não se deve esperar grandes novidades de imediato: a transição é gradual, mas já há um novo comando à frente da instituição. No Brasil, o cenário que se desenha é de mais um corte de juros — possivelmente o último —, com o Copom levando a Selic para 14,25%. Diante da deterioração que se observa nas expectativas de inflação, tanto para este ano quanto para o próximo, o espaço para continuar cortando é cada vez mais estreito.

O mercado de juros longos, por sua vez, virou completamente. Hoje, as NTN-B pagam juro real acima de 8%, uma situação já no limite, com os juros nominais longos beirando os 14,5%. O pessimismo está bastante elevado, refletindo a leitura de que a inflação vai acelerar. A deterioração é grande: alguns meses atrás, o juro longo chegou a tocar quase 13%, e agora voltou para algo em torno de 14,5%. Isso traz prejuízo provisório para as carteiras e machuca de forma intensa o financiamento de longo prazo no país. Pense em uma NTN-F de dez anos em torno de 14,5%, são juros muito altos. É uma piora expressiva no cenário de juro longo e de funding.

Vamos acompanhar como virão as decisões do Fed e do Copom, e se a questão do petróleo dá algum alívio. Mas o fato é que caminhamos para encerrar o primeiro semestre de 2026 com um cenário bem pior do que se imaginava, especialmente em termos de inflação e de juros. A boa notícia é que a economia segue crescendo. Os dados de emprego dos Estados Unidos, divulgados na última sexta-feira, mostraram um mercado de trabalho ainda com força: foram mais de 150 mil vagas criadas em maio, acima do esperado, no terceiro mês consecutivo de geração robusta de postos. Os juros nos EUA também não devem cair.

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