Mercados em pânico com guerra comercial no mundo

Os mercados estão entrando em modo pânico. O petróleo está cotado a quase US$ 60, o menor nível em 4 anos. Tudo isso, obviamente, por conta da escalada da guerra tarifária. A China não apenas não removeu tarifas contra os Estados Unidos, como também impôs uma tarifa de 84% sobre produtos americanos. É uma queda de braço intensa, que lembra uma nova Guerra Fria – uma versão do século XXI – entre uma China que, aliás, já é maior que os EUA em paridade de poder de compra (PPC).

O PIB da China supera o PIB americano em PPC. Os números do comércio deixam isso claro: a China importa dos EUA cerca de US$ 150 bilhões, enquanto os EUA importam da China mais de US$ 200 bilhões. Apesar da interdependência – o mercado consumidor americano ainda é muito importante para a China – as exportações chinesas já ultrapassam US$ 3 trilhões. Ou seja, o comércio com os EUA hoje representa apenas uma fração do que representava há 5 ou 10 anos. A China conseguiu se diversificar muito quanto aos destinos de suas exportações.

Atualmente, a China exporta US$ 3 trilhões e importa cerca de US$ 2 trilhões, mantendo um superávit comercial de aproximadamente US$ 1 trilhão. É impressionante o volume de recursos que a China acumula por meio de exportações, especialmente industriais. Já os EUA importam quase US$ 3 trilhões e exportam pouco menos de US$ 2 trilhões.

Um dado interessante: os EUA exportam cerca de US$ 400 bilhões para a China, US$ 400 bilhões para o Canadá e US$ 400 bilhões para o México. Ou seja, quase metade das exportações americanas se concentra nesses três países – o que explica os conflitos comerciais promovidos por Donald Trump com eles.

A China de hoje é forte, diferente do passado. Está associada à Rússia e a outros países com grandes reservas cambiais. O espaço econômico chinês é muito maior atualmente. Por isso, esse conflito não será resolvido facilmente.

Além disso, há o problema da liquidação de Treasuries (títulos da dívida americana). Os asiáticos, especialmente os chineses, são grandes detentores desses papéis e estão se desfazendo deles. A taxa dos títulos de 10 anos nos EUA, que havia caído para 3,95% no início do estresse, já está quase em 4,50%. Nem os títulos públicos são mais vistos como “safe havens” (ativos seguros) – a liquidação de crédito de longo prazo agrava ainda mais o cenário.

Essa relação simbiótica entre China e EUA inclui o financiamento do déficit americano: a China, com seu superávit, compra títulos americanos. Mas até isso está mudando, com o risco de confisco de ativos chineses por parte dos EUA – algo impensável há poucos anos, mas que hoje começa a parecer plausível. A escalada de ignorância dos dois lados é preocupante. Um choque tarifário dessa magnitude só poderia resultar em um princípio de crise financeira.

A S&P 500, por exemplo, teve ontem uma das maiores reviravoltas da história: subia 4% e fechou com queda de 1%. O petróleo está em US$ 60, em queda livre. O Brasil, altamente exposto a commodities e bancos – que juntos compõem 50% do índice Bovespa – também sofre: minério de ferro abaixo de US$ 100, petróleo em queda, e o real sendo tratado como ativo ligado a commodities.

O dólar futuro está cotado a R$ 6,09. Os juros de longo prazo no Brasil explodiram, com a curva subindo quase 40 pontos-base, superando 15%. Isso prenuncia um pregão muito negativo na Bolsa.

Claro, tudo isso poderia ser revertido com um acordo comercial ou algum alívio na guerra tarifária, mas, por ora, isso não está no horizonte. É preciso atenção: essas reviravoltas nos preços dos ativos podem ser rápidas e violentas. O real pode se valorizar subitamente, os juros podem cair de forma abrupta.

Saiu também o dado de varejo no Brasil nesta manhã. O varejo restrito subiu 0,5% em fevereiro na comparação com janeiro, o que reduz o risco de contração do PIB no 1º trimestre. Já o varejo ampliado caiu 0,4%, com destaque para a queda nas vendas de veículos e materiais de construção.

Hoje temos a ata do Fed e, à tarde, novos dados econômicos nos EUA. Mas, no momento, os mercados seguem em pânico, impactados pela escalada da guerra comercial.

Dados:

1 $2.19T Importações da China
2 $3.42T Exportações da China
3 $3T Importações dos EUA
4 $1.86T Exportações dos EUA

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