Os mercados estão hoje um pouco mais aliviados, com alta após três dias muito negativos — uma das piores sequências desde a pandemia e desde a crise do subprime. Para se ter uma noção da magnitude, as quedas de quinta, sexta e ontem foram muito intensas nos mercados da Europa, Ásia e Estados Unidos.
O Brasil também caiu, mas de forma menos violenta quando comparado com os demais mercados. É natural que, após uma correção tão forte, haja uma reação de compra generalizada, com os ativos sendo vistos como “baratos” em relação a uma semana atrás.
Tarifas e guerra comercial
Ontem houve um mal-entendido sobre a possível postergação de tarifas pelos EUA, o que foi posteriormente desmentido pela Casa Branca. Alguns comentários indicam que o governo americano ainda vê grande poder de barganha nas tarifas impostas por Trump. O Japão estaria avançando em negociações com os EUA — uma notícia de viés mais positivo.
A China, por outro lado, ameaçou impor 50% a mais em tarifas caso os EUA mantenham as tarifas retaliatórias. O governo chinês também sinalizou disposição de levar a disputa até o fim. Os EUA tendem a classificar seus parceiros comerciais em três grupos:
• Aliados: 0% de tarifa
• Neutros: 20% de tarifa média
• “Inimigos” asiáticos: cerca de 30% de tarifa média
A América Latina — incluindo o Brasil — acabou ficando em situação relativamente melhor, com tarifas de apenas 10% em média.
Impactos econômicos e expectativa de juros
Essas tensões geram expectativa de corte de juros e possível recessão nos EUA. O mercado está dividido entre a possibilidade de 4 ou até 5 cortes de 0,25 ponto percentual cada. Há dois vetores em conflito:
1. Pressão inflacionária (alta de preços devido às tarifas)
2. Risco de recessão (por causa da incerteza econômica)
No momento, o mercado parece mais preocupado com a recessão do que com a inflação — isso é visível na curva de juros.
China e câmbio
A China opera com um regime de câmbio quase fixo. O governo chinês possui cerca de US$ 3 trilhões em reservas internacionais. Com esse poder de fogo, pode fixar o câmbio diariamente (o peg), comprando dólares sempre que necessário. Desde a década de 1990, acumulou quase US$ 4 trilhões, gastando depois cerca de US$ 1 trilhão em investimentos externos, como o projeto One Belt, One Road.
Para se ter uma ideia, o FMI tem apenas cerca de US$ 500 a 600 bilhões de disponibilidade. O câmbio chinês tem estado há décadas entre 7 e 8 yuans por dólar, o que não condiz com o forte aumento da produtividade chinesa nesse período. Isso configura um câmbio artificialmente desvalorizado, o que dá enorme competitividade às exportações chinesas.
Inclusive, o próprio FMI já classificou a China como currency manipulator. O Vietnã segue a mesma linha, assim como outros países asiáticos — Coreia do Sul, Malásia, Indonésia e Tailândia — que historicamente adotaram a estratégia de manter o câmbio desvalorizado para favorecer suas exportações.
A China pode, inclusive, usar a desvalorização cambial como forma de neutralizar os efeitos das tarifas. Por exemplo, se for imposta uma tarifa de 20% e o yuan se desvaloriza 20%, o impacto acaba sendo anulado.
Brasil e inflação
No Brasil, a agenda de indicadores está mais vazia. Saiu hoje a 1ª prévia do IGP-M de abril, com alta de 0,05%, contra 0,29% na prévia do mês passado. A leitura ainda reflete uma taxa de câmbio mais valorizada, com o dólar na casa de R$ 5,70. Com o recente estresse do mercado e as tarifas, o câmbio voltou a se aproximar de R$ 6,00, o que pressiona a inflação — inclusive nos preços dos alimentos.
Para o restante da semana, o dado mais importante será o CPI (inflação ao consumidor) dos EUA, mas, em meio à turbulência tarifária, os dados econômicos vêm sendo ofuscados. O foco do mercado segue nas negociações comerciais e nas possíveis mudanças de postura do governo Trump.



