Todo ano, em 1º de julho, o Banco Mundial reorganiza o mapa econômico do planeta. A classificação divide os países em quatro grupos de acordo com a renda nacional bruta per capita do ano anterior. Na edição de 2026, os limites passaram a ser: baixa renda até US$ 1.175, renda média-baixa de US$ 1.176 a 4.635, renda média-alta de US$ 4.636 a 14.375 e alta renda acima de US$ 14.375. A edição cobre 218 países e servirá de referência global até o fim de junho de 2027.
O resultado cabe numa fotografia simples. São 87 economias de alta renda, 59 de renda média-alta, 47 de renda média-baixa e 25 de baixa renda. Em termos de proporção, 40% das economias do mundo são ricas, 49% estão em algum degrau da renda média e 11% são pobres. O mapa, porém, engana um pouco. Muitos dos países ricos são pequenos territórios, paraísos fiscais, ilhas turísticas e microestados. Se ponderássemos por população, a imagem seria bem menos animadora: a maior parte da humanidade vive em países de renda média e baixa.
A pergunta que interessa é por que alguns países chegaram ao topo e tantos outros ficaram no meio do caminho. A resposta convencional aponta para instituições, capital humano ou abertura comercial. A teoria da complexidade econômica, desenvolvida por César Hidalgo e Ricardo Hausmann em Harvard e no MIT, oferece uma lente mais concreta: países ricos são aqueles que sabem fazer muitas coisas, e coisas difíceis. A riqueza de uma nação está no conhecimento produtivo acumulado nas suas empresas, trabalhadores e redes de fornecedores. Esse conhecimento aparece, de forma observável, na pauta de exportações.
Quando olhamos o mapa por essa lente, os padrões ficam nítidos. Os países de alta renda da América do Norte, da Europa Ocidental e do Leste Asiático exportam máquinas, produtos químicos, equipamentos eletrônicos, instrumentos de precisão e medicamentos. São bens que exigem muitas capacidades combinadas e que poucos países conseguem produzir. Na outra ponta, a mancha clara que cobre boa parte da África subsaariana corresponde a economias que exportam poucos produtos, quase sempre primários e ubíquos: minérios, petróleo, algodão, cacau. O que se exporta diz o que se sabe fazer, e o que se sabe fazer determina quanto se ganha.
As exceções confirmam a regra. As monarquias do Golfo, a Rússia e, agora, a Guiana aparecem em azul-escuro no mapa, mas sua riqueza vem de recursos naturais, não de sofisticação produtiva. É uma riqueza real, mas frágil: depende do preço de uma commodity e não se transmite com facilidade para o restante da economia. Argentina e Turquia mostram outra limitação da régua de renda. Por causa das limitações do método Atlas em países com inflação alta e persistente, ambos seguem classificados como renda média-alta.
World Bank
O grupo mais revelador é o do meio. A chamada armadilha da renda média é, antes de tudo, uma armadilha de complexidade. Países como Brasil, México, África do Sul e boa parte da América Latina chegaram à renda média com commodities, montagem industrial e um mercado interno relevante. Não conseguiram dar o salto seguinte, que exige dominar setores de alta tecnologia e alta produtividade. O Brasil é o caso mais doloroso: tivemos uma estrutura industrial diversificada nos anos 1980 e perdemos complexidade nas décadas seguintes, à medida que a pauta de exportações se concentrou em soja, minério, petróleo e carnes.
A novidade deste ano mostra o outro lado da moeda. Jordânia, Micronésia, Filipinas, Sri Lanka e Vietnã subiram de renda média-baixa para média-alta, e o Togo saiu da baixa renda. O caso vietnamita é o mais interessante do ponto de vista da complexidade. Movido por um modelo exportador, o país viu suas exportações crescerem mais de 15% em 2024 e em 2025, com o PIB avançando 7% e 8%. Não por acaso, o Vietnã passou as últimas duas décadas deixando de exportar arroz e têxteis para exportar eletrônicos, smartphones e componentes. É a trajetória clássica do Leste Asiático: primeiro se aprende a fazer, depois se enriquece. A China percorreu o mesmo caminho e hoje tem complexidade econômica muito acima do que sua renda per capita sugeriria.
Esse descompasso tem valor preditivo. Uma das contribuições mais importantes da literatura de complexidade é mostrar que países mais complexos do que sua renda tendem a crescer mais rápido nos anos seguintes, e países menos complexos do que sua renda tendem a estagnar. O mapa de hoje é uma fotografia; a complexidade é o filme. Quem acumula capacidades produtivas está plantando a renda de amanhã. Quem vive da renda de recursos naturais ou de serviços pouco sofisticados colhe hoje o que pode não ter amanhã.
A lição para o Brasil é clara. Sair da renda média não é apenas questão de ajustar juros, câmbio ou contas públicas, embora tudo isso importe. É uma questão de reconstruir capacidades produtivas: política industrial, investimento em ciência e tecnologia, integração a cadeias de maior valor e ambição de produzir bens mais complexos. Como argumento em Complexidade Econômica, a riqueza das nações está no que elas sabem fazer. O mapa do Banco Mundial mostra onde cada país está. A complexidade econômica mostra por quê, e para onde ele pode ir.


