Introdução: A Corrida Bilionária pelo Investimento Estrangeiro
Governos ao redor do mundo gastam bilhões em incentivos fiscais, zonas econômicas especiais e subsídios para atrair Investimento Estrangeiro Direto (IED). A lógica parece inquestionável: empresas multinacionais trazem capital, tecnologia e conhecimento de gestão, elementos vistos como um motor poderoso para o crescimento, a inovação e o desenvolvimento de empresas locais.
Apesar dessa crença generalizada, os dados contam uma história mais complicada. A realidade é que, parafraseando a famosa observação de Robert Solow sobre computadores, o IED parece estar “em todo lugar, exceto nas regressões de crescimento”. A relação positiva e robusta que os formuladores de políticas esperam nem sempre se materializa nos dados agregados.
Uma nova pesquisa de Bénétrix, Pallan e Panizza (2026) oferece percepções novas e, muitas vezes, surpreendentes que desafiam essas suposições antigas. Este artigo destila os três principais aprendizados contraintuitivos desse estudo, que mudam a forma como devemos pensar sobre o capital estrangeiro.
——————————————————————————–
1. As Regras do Jogo Mudaram: As Condições que Faziam o Investimento Funcionar Perderam Força
Por muito tempo, a teoria aceita era que o IED só promovia o crescimento quando os países anfitriões tinham “capacidades de absorção” específicas. Isso significava que um país precisava de capital humano suficiente (um bom nível de educação) e mercados financeiros desenvolvidos para que as empresas nacionais pudessem aprender, investir e se conectar com as multinacionais. Essa era a realidade nos anos 1980 e 1990.
A grande surpresa é que, de acordo com a nova pesquisa, que usa dados de 1975 a 2019, esses efeitos condicionantes “desapareceram em grande parte” ou “enfraqueceram consideravelmente” desde a virada do século. Os estudos mais recentes descobriram que o efeito do IED sobre o crescimento é agora “frequentemente não significativo estatisticamente”.
Essa descoberta é impactante porque significa que o manual antigo para fazer o IED funcionar – focar apenas em melhorar a educação e a profundidade dos mercados financeiros – não é mais uma receita garantida para o sucesso. As condições que antes eram cruciais para traduzir investimento em crescimento perderam sua potência.
——————————————————————————–
2. Nem Todo Investimento é Igual: O Setor da Economia Muda Tudo (e Pode até Prejudicar)
Uma das descobertas mais significativas da pesquisa é que os efeitos do IED no crescimento variam drasticamente dependendo do setor econômico para o qual ele flui.
- Setor Primário: Neste setor (agricultura, mineração), o IED tem um efeito positivo e robusto. Isso provavelmente se deve a uma dinâmica de “enclave”, onde o investimento aumenta a produção dentro das próprias empresas estrangeiras, mesmo que os benefícios não se espalhem muito para o resto da economia.
- Manufatura: Aqui, não há uma relação positiva significativa. Este “resultado nulo” provavelmente reflete forças que se anulam. A entrada de empresas estrangeiras pode aumentar a produtividade, mas ao mesmo tempo pode deslocar produtores domésticos, neutralizando o ganho geral. Além disso, o investimento na manufatura é extremamente heterogêneo, variando de produção de altíssimo valor agregado a simples plataformas de montagem com conteúdo local mínimo.
- Serviços: Esta é a descoberta mais contraintuitiva. No setor de serviços, o IED está associado a um menorcrescimento.
A razão para esse resultado surpreendente é que o IED no setor de serviços tende a se concentrar em indústrias não comercializáveis ou reguladas (como telecomunicações, varejo e finanças). Ele frequentemente assume a forma de fusões e aquisições, que consolidam o mercado. A entrada estrangeira pode deslocar fornecedores domésticos sem uma expansão proporcional do setor, mesmo que a eficiência melhore.
Para enfatizar o ponto, a pesquisa é categórica:
“No setor de serviços, o IED está associado a um menor crescimento.”
Essa análise setorial também resolve o mistério da seção anterior. Por que a educação e os mercados financeiros perderam importância? Porque a composição do IED mudou. Esses fatores locais importavam mais no setor primário, que nas últimas décadas recebeu uma fatia cada vez menor do investimento global. À medida que o IED se deslocou para os serviços (onde as condições locais têm efeitos mais fracos), a importância geral desses fatores diminuiu nos dados agregados.
——————————————————————————–
3. Estar no Jogo Global Não Basta: Como um País Participa é o que Define o Sucesso
A globalização moderna não se trata mais apenas de enviar produtos acabados entre países. Trata-se de “Cadeias Globais de Valor” (CGVs), onde a produção é fragmentada em tarefas e etapas espalhadas por diferentes nações. O IED é a peça central dessa transformação.
A pesquisa revela que a ligação positiva entre IED e crescimento é, na verdade, mais forte em setores com baixaparticipação nas CGVs. À medida que a integração de um setor na economia global se aprofunda, essa relação enfraquece e pode até desaparecer.
O tipo de participação na cadeia global também é crucial:
- Participação “para trás” (Backward participation): Este é o modelo de “plataforma de montagem”. Pense no modelo “maquiladora”: um país importa componentes caros, usa mão de obra barata para montá-los e exporta o produto final, capturando apenas uma pequena fração do valor total. Esse modelo tende a enfraquecer a ligação entre IED e crescimento, pois gera números de exportação elevados, mas com valor agregado doméstico limitado.
- Participação “para a frente” (Forward participation): Neste modelo, o país se torna um fornecedor crucial. Em vez de montar iPhones, ele projeta e exporta os chips ou as telas de alta tecnologia que vão dentro dos iPhones montados em outros lugares, garantindo uma fatia muito mais lucrativa do valor. Isso leva a uma associação positiva entre IED e crescimento, pois o país consegue capturar uma fatia maior do valor criado.
Isso revela um ponto cego crítico na política econômica: governos frequentemente celebram a abertura de uma fábrica de montagem estrangeira, mas a verdadeira métrica de sucesso é o crescimento de um ecossistema de fornecedores domésticos que possa participar “para a frente” e capturar mais valor.
——————————————————————————–
Conclusão: De “Mais Investimento” para “Melhor Investimento”
As conclusões desta nova pesquisa exigem uma reavaliação fundamental de como pensamos sobre o investimento estrangeiro. As velhas regras perderam força. O setor para onde o investimento flui é crítico. E na era das cadeias globais de valor, o tipo de integração importa mais do que a quantidade.
Isso representa um desafio direto a décadas de políticas de desenvolvimento, tornando o antigo manual de atração de IED comprovadamente obsoleto. A pergunta para os governos não deve mais ser “Como atraímos mais IED?”, mas sim “Que tipo de IED nos ajuda a capturar mais valor e como garantimos que as empresas domésticas se beneficiem?”.
Países que conseguirem traduzir a presença de multinacionais em criação de valor doméstico, com fortes conexões locais, se beneficiarão substancialmente. Aqueles que ficarem presos em atividades de montagem de baixo valor podem descobrir que o IED produz estatísticas de comércio impressionantes, mas resultados de crescimento decepcionantes.
Diante dessas descobertas, como os países podem projetar políticas mais inteligentes que vão além de simplesmente atrair capital estrangeiro e começam a construir valor doméstico real e sustentável?

