Monopsônios e monopólios em economias de rede: Alibaba, Uber, Amazon e ifood. Ou porque Bill Gates e Jeff Bezos tem 100 bilhões de dólares de patrimônio

*escrito com Gabriel Galipolo

Em dinâmicas de mercado que operam com economias de rede há uma tendência muito forte a centralização de compras e vendas num único HUB; um nó central da rede que vira ao mesmo tempo o maior comprador e o maior vendedor. Trading de café é um belo exemplo disso: os suíços dominam o mercado mundial de café sem plantar um único pé. Compram o café comodity de todos produtores do mundo e vendem aos consumidores do mundiais com suas marcas. A centralização nesse caso se dá pela força da marca e pelo domínio (inclusive logístico, com rotas marítimas, portos e conexões com ferrovias) dos canais de distribuição de compra e venda. Os suíços são então quase monopsonistas nesse mercado (único Grande comprador) e quase monopolistas (único grande vendedor). Muitas vezes o monopolista na venda não consegue virar monopsonista na compra pois os vendedores se aglutinam para se defender e procurar novos compradores. Nos casos em que há grande pulverização de fornecedores e de usuários finais potenciais fica bem mais fácil construir uma rede centralizadora. Exemplos: Uber, Amazon, Netflix e ifood foram capazes de construir uma rede tecnológica em que dominam as compras e vendas. Acessam infinitos fornecedores (lojas de roupa, produtores de series e filmes, motoristas de carro e restaurantes) e “repassam” a mercadoria para milhares de clientes usuários das redes que eles controlam. Darkkitchens no mercado de restaurantes, plataformas financeiras e desaparecimento das agências de bancos, apocalipse do varejo físico americano são consequências desse processo. O grosso do lucro tende a ficar com o centralizador da rede que compra dos produtores commoditizados e vende com margem para os usuários da rede.

A única defesa dos produtores é tentar se descomoditizar através de produtos únicos e diferenciados e criação de marcas. Por que não surgem concorrentes na venda dos produtos para roubar a posição do monopolista? Pois o grande ativo do monopolista é a rede que criou para vender os produtos que ele compra como monopsonista. Não há espaço para varias redes (de eletricidade, de gás, de uber, de ifood e de Amazon). Os usuários convergem para uma única rede de distribuição onde encontram tudo que precisam. Além disso os custos iniciais (especialmente tecnológicos) para constituição dessa rede são altíssimos e criam boas barreiras à entrada para proteger o monopolista/monopsonista. Um outro bom exemplo disso são os produtos da Microsoft: todo mundo usa word, Excel e Powerpoint porque sabe que todo mundo usa esses produtos! Com o tempo esses “centralizadores de rede” vão ficando cada vez mais fortes! Não à toa hoje Bill gates e jeff bezos são as únicas duas pessoas do mundo a ter um patrimônio de mais de 100 bilhões de U$. Para usar o termo de César hidalgo nesse maravilhoso vídeo que explica um de seus paper: nesses mundos reina um lógica topocratica: https://youtu.be/CTJ8TAMv3sk

Depois de estabelecidas dificilmente essas redes são suplantadas por outras. Sistemas desse tipo exibem “lock in” ou seja, tendem a se manter presos a sua trajetória graças a existência do que os economistas chamam de retornos crescentes. Quem estudou isso muito bem foram os economistas Brain Artur e Paul David num paper chamado “a economia do qwerty” (paper aqui: https://econ.ucsb.edu/~tedb/Courses/Ec100C/DavidQwerty.pdf) que explicava a origem dos teclados de máquinas de datilografar e computadores e a configuração dos teclados hj. Os teclados são assim hoje pois todos decoraram as teclas nessas posições, não dá mais para mudar: reparo nisso agora enquanto digito esse texto. Lá atrás as letras tinham essa configuração para não “aglutinar letras próximas” e travar a máquina. Novos teclados nunca mais foram feitos com outra configuração e nunca serão!

http://www.paulogala.com.br/redes-e-retornos-crescentes-krugman-encontra-barabasi/

Paper aqui: https://www.media.mit.edu/publications/to-each-according-to-its-degree-meritocracy-and-topocracy-of-networks/

Bom livro sobre o tema:

Book Review: Platform Capitalism by Nick Srnicek

Análise marxista sobre o tema: https://monthlyreview.org/2004/10/01/monopoly-capitalism/

As G.K. Chesterton observed, “Too much capitalism does not mean too many capitalists, but too few capitalists.”

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