Montar não é fabricar: o custo da reindustrialização dos Estados Unidos

Em entrevista à CNBC, Peter Navarro, ex-assessor da Casa Branca, sintetizou um debate essencial para o futuro da economia americana: “Todos nós entendemos na Casa Branca – e o povo americano entende – que Elon é um fabricante de carros. Mas ele não é um fabricante de carros. Ele é um montador de carros.” A fala se refere à Tesla, que embora monte seus veículos em solo americano, depende intensamente de componentes vindos da Ásia — baterias do Japão e da China, eletrônicos de Taiwan, entre outros. Para Navarro, o verdadeiro projeto industrial americano não é apenas montar carros no Texas, mas fabricar pneus em Akron, transmissões em Indianápolis, motores em Flint e Saginaw. Em outras palavras, reconstruir a indústria americana de forma profunda e completa.

A crítica de Navarro aponta para uma realidade que se consolidou nas últimas décadas. A globalização, intensificada a partir dos anos 1980, levou empresas americanas a transferirem sua produção para países com custos mais baixos, especialmente no Leste Asiático. Esse processo, conhecido como offshoring, permitiu reduzir custos e aumentar lucros, mas também causou a desindustrialização de regiões inteiras nos Estados Unidos e uma dependência crescente de rivais estratégicos como a China.

Hoje, a Casa Branca quer inverter esse processo. A reindustrialização voltou ao centro da agenda econômica americana, impulsionada não apenas por considerações econômicas, mas também por razões geopolíticas e de segurança nacional. A pandemia de COVID-19, a guerra comercial com a China e a crescente instabilidade internacional tornaram claro que depender de cadeias de suprimento longas e vulneráveis é um risco que os EUA não podem mais assumir.

Mas esse retorno da produção industrial ao território americano tem um custo — e ele é alto. Produzir localmente significa, antes de tudo, lidar com salários muito mais altos. Um trabalhador industrial nos EUA custa entre US$ 25 e US$ 45 por hora (incluindo encargos), contra US$ 3 a US$ 7 por hora em países como China, Vietnã ou Índia. Além disso, será necessário reconstruir capacidades industriais perdidas, treinar uma nova geração de trabalhadores e recuperar escala produtiva em setores dominados pela Ásia há décadas.

Os investimentos para essa transição são bilionários. A instalação de fábricas de baterias para veículos elétricos nos EUA, por exemplo, já envolve dezenas de bilhões de dólares em parceria com empresas coreanas e japonesas. O custo para instalar um gigawatt-hora de capacidade pode ultrapassar os US$ 70 milhões. No setor de semicondutores, uma fábrica moderna pode exigir mais de US$ 20 bilhões em investimentos. Para viabilizar esses projetos, o governo americano tem recorrido a pesados subsídios públicos, como os previstos no CHIPS Act e no Inflation Reduction Act.

A nova política industrial americana aposta que esses custos valem a pena. Produzir internamente é mais caro, mas fortalece a economia, reduz vulnerabilidades externas e cria empregos de qualidade em regiões esquecidas pela globalização. A dúvida que persiste é quem vai pagar essa conta: os consumidores, com produtos mais caros? As empresas, com margens de lucro reduzidas? Ou o próprio Estado, com subsídios massivos?

A frase de Navarro revela mais do que uma disputa com Elon Musk — ela representa um choque entre duas visões de país. Uma baseada na eficiência global e no custo mais baixo. A outra, na soberania produtiva, no emprego industrial e na segurança econômica. A escolha entre montar ou fabricar não é apenas técnica. É política, estratégica — e definirá o lugar dos Estados Unidos na economia do século XXI.

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