Há uma crítica recorrente, e em larga medida justa, ao polo de duas rodas da Zona Franca de Manaus: boa parte do que ali se produz é maquilação endo-orientada. Kits importados em regime CKD, montagem local reduzida ao mínimo para cumprir o Processo Produtivo Básico e capturar o incentivo fiscal da Suframa, e um produto voltado inteiramente para o mercado interno. A onda recente de fabricantes asiáticas não-japonesas — Shineray, Haojue, Bajaj, a Mottu transformada em frota de entregador, além de dezenas de entrantes — opera, na maioria dos casos, exatamente sob essa lógica. É rent-seeking fiscal vestido de indústria: voltado para dentro, sem densidade tecnológica, sem encadeamento produtivo. É a indústria que não aprende.
Mas Manaus também guarda o seu próprio contraexemplo. E ele é instrutivo justamente porque ocorre debaixo do mesmo regime de incentivos.
A exceção honrosa: a FlexOne como inovação de produto
A Moto Honda da Amazônia está instalada em Manaus desde os anos 1970 — a CG 125 nasce ali em 1976 — e ao longo de meio século acumulou o que quase nenhuma das entrantes possui: base de fornecedores, engenharia local e, sobretudo, capacidade de desenvolver produto, não apenas montá-lo.
O marco dessa trajetória é 2009, com a CG 150 Titan Mix: a primeira motocicleta bicombustível produzida em série no mundo. A tecnologia, batizada FlexOne, foi desenvolvida em conjunto pela engenharia nacional e japonesa, especialmente para o mercado brasileiro. O desafio não era trivial. Numa moto não há espaço para o subtanque, a bomba e os sensores que resolvem a partida a frio nos carros flex; foi preciso uma solução própria de injeção e gestão eletrônica para fazer o consagrado motor da CG rodar com gasolina, etanol ou qualquer mistura entre os dois.
Quinze anos depois, o resultado fala por si. A FlexOne já equipa cerca de 60% das motocicletas que a Honda produz no Brasil, já passou de oito milhões de unidades saídas da fábrica de Manaus e — detalhe decisivo — virou um diferencial brasileiro exportável: desde 2023, a tecnologia passou a ser levada para a Índia, um dos maiores mercados de duas rodas do planeta.
Isso é complexidade econômica no sentido literal de Hausmann e Hidalgo: capacidade produtiva acumulada que se transforma em capacidade exportável. Não é montagem; é aprendizado tecnológico enraizado.
As seis brasileiras
São seis os modelos que materializam esse projeto — todos desenvolvidos pela Honda Brasil, todos flex, e que não existem com essa configuração em outros mercados:
- Biz 125
- CG 160
- NXR 160 Bros
- XRE 190
- CB 300F Twister
- XRE 300 Sahara
Não é coincidência que as seis sejam flex. E aqui há um argumento técnico-econômico que vale destacar: o flex existe apenas até a classe dos 300 cm³, e não há um único modelo flex acima disso — nem mesmo na própria Honda Brasil. A razão é de mercado antes de ser de engenharia. O investimento em desenvolvimento flex só se paga no segmento de massa, utilitário, sensível ao preço do combustível e à economia do etanol. Acima dos 300 cilindradas o mercado brasileiro é pequeno, premium e majoritariamente importado ou montado em CKD; não há escala que justifique o projeto. O teto dos 300 cm³ é, ele próprio, um fato de complexidade: a capacidade tecnológica se concentra onde demanda e política industrial se alinham.
A prova nas vendas
A força dessas máquinas no mercado confirma que não se trata de produto de nicho. No acumulado de janeiro a junho de 2026, segundo a Fenabrave, a CG 160 lidera de forma isolada com mais de 216 mil emplacamentos, vendendo praticamente o dobro da segunda colocada. Logo atrás vêm a Biz e, na sequência das primeiras posições, a Bros 160.
Mas o caso é ainda mais forte no recorte mensal. Em fevereiro de 2026, o Top 10 nacional reuniu, todas de uma vez, seis das motos da Honda Brasil: CG 160 em primeiro, Biz em segundo, NXR 160 Bros em quarto, CB 300F Twister em sétimo, XRE 190 em oitavo e XRE 300 Sahara em décimo. A XRE 190 e a XRE 300 alternam entre a oitava e a décima colocação conforme o mês — ou seja, em boa parte do tempo, as seis estão dentro do Top 10, não apenas coladas nele. É um domínio de mercado raro, construído sobre um produto genuinamente nacional.
A leitura que importa
O ponto fino é este: Manaus serve como contraexemplo de si mesma. O mesmo incentivo fiscal que produz maquila estéril nas mãos das entrantes asiáticas produziu, nas mãos de uma firma com meio século de aprendizado acumulado, uma inovação de produto verdadeira, pioneira mundial e hoje exportável.
A diferença não está no regime tributário. Está na presença ou na ausência de capacidade produtiva enraizada. É Celso Furtado e Mariana Mazzucato no mesmo caso: a política industrial não cria competência por decreto; ela só rende quando encontra — ou tem paciência para construir — o tecido de capabilities que transforma o incentivo em complexidade. Onde esse tecido existe, surge a FlexOne e seis líderes de mercado. Onde não existe, sobra renda fiscal capturada no meio da floresta.
História de sucesso da indústria brasileira, sim. Mas uma história que precisa ser lida com cuidado, porque o que a torna possível não é o subsídio em si — é o aprendizado que poucos, em Manaus, se dispuseram a acumular.

