Multinacionais defendem com unhas e dentes suas tecnologias proprietárias

*escrito com Andre Roncaglia (esse texto é parte de nosso novo livro” Brasil, uma economia que nao aprende”)

O centro da economia mundial tem alto conteúdo tecnológico proprietário em seus produtos, logo tem poder de monopólio considerável e a periferia não. Isso torna muito difícil para países da América Latina, África e Ásia chegarem lá. Alguns países do Leste Asiático conseguiram. O desenvolvimento econômico pode ser entendido então como um processo de aprendizagem produtiva. Alguns países pobres são capazes de aprender ao longo do tempo, outros não. Essa aprendizagem leva a produção de bens e serviços com poder de monopólio e alto conteúdo tecnológico; que dificulta o avanço dos outros. O conhecimento produtivo é o grande valor que um país tem, isso o torna rico. Esse conhecimento está nas empresas, marcas, tecnologias e patentes de propriedade de seu sistema produtivo. Isso nunca é transferido para os países emergentes, especialmente por multinacionais que protegem seu core tecnológico e muitas vezes drenam tecnologia quando alguma empresa emergente desponta; compram, absorvem a tecnologia e mandam para a matriz.

Amsden (2001, p. 5) nos relembra que, mesmo na ausência de patentes, a natureza tácita e proprietária das tecnologias produtivas dificultam a aquisição de conhecimento. As características de uma dada tecnologia não podem ser totalmente documentadas, de forma que a otimização do processo e a especificação do produto permanecem uma “arte”, dependendo de habilidades gerenciais que são mais tácitas do que explícitas. Na tipologia empregada por Alice Amsden em seu livro A Ascensão do Resto, os grandes países emergentes podem ser divididos em duas subcategorias: os independentes e os integracionistas. O primeiro, composto por países como Coreia do Sul, China, Índia e Taiwan, teriam confiado pouco nos investimentos estrangeiros e buscaram investir e desenvolver tecnologias próprias. Já o segundo, que conta com Brasil, Argentina, Chile, México e Turquia confiaram muito no investimento externo, no efeito transbordamento de multinacionais e contaram com a compra de tecnologia estrangeira.

O que fazem as multinacionais ao redor do mundo? Constroem suas bases produtivas perto dos mercados consumidores e em bases exportadoras com mão de obra barata; uma lógica econômica quase pura. Os centros de pesquisa e desenvolvimento de produtos, marcas, conteúdo tecnológico e centros de inovação ficam em geral nas bases principais dessas empresas, na matriz em países ricos. Nesses locais estão os melhores cérebros, as melhores capacidades produtivas e o grosso do capital humano; patentes e conhecimento acumulado por essas empresas, o centro nervoso. A parte produtiva high tech e de serviços empresariais fica nos países ricos. Por que então as bases produtivas em outros países? Por conta dos custos de transporte para alcançar mais mercados ou de mão de obra super barata para construir bases de exportação. A parte “nobre” da rede produtiva e de inovação fica sempre no país mãe, em geral por questões meramente econômicas mesmo. Muitas das empresas domésticas que começam a despontar e conseguem desenvolver conteúdo tecnológico proprietário são compradas por multinacionais. Foi o caso da Embraer, da Troller, da Celma e de tantas outras belas empresas no Brasil.

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