
Os números do Bolsa Família contam uma história que raramente aparece no debate público. Segundo levantamento do Poder360, o programa saiu de 21,60 milhões de famílias atendidas em dezembro de 2022 para 18,84 milhões em fevereiro de 2026. Ou seja, uma queda de 2,76 milhões de benefícios em 3 anos e 2 meses de terceiro mandato de Lula.
O contraste com o governo anterior é grande. Nos quatro anos de Jair Bolsonaro, o programa — rebatizado de Auxílio Brasil em boa parte do período — ganhou 7,46 milhões de famílias, saltando de 14,14 milhões em dezembro de 2018 para o pico de 21,60 milhões em dezembro de 2022. Vale lembrar que boa parte dessa expansão se concentrou em 2022, ano eleitoral, com forte inchaço nas chamadas famílias unipessoais (beneficiários que moram sozinhos).
Dois motores por trás da queda
A redução sob Lula tem duas explicações que caminham juntas.
A primeira é a revisão cadastral. O governo reformulou o Cadastro Único e conduziu um pente-fino rigoroso, com foco justamente nas famílias unipessoais entre 18 e 49 anos. Muita gente que havia entrado no programa no ciclo pré-eleitoral de 2022 foi retirada por não comprovar os critérios de elegibilidade. Foi uma limpeza de base com motivação também fiscal, dentro das amarras do arcabouço.
A segunda explicação — e essa é a que mais me interessa como economista — é o mercado de trabalho. Quando a economia gera emprego e renda, famílias ultrapassam o limite de elegibilidade e saem naturalmente do programa. Não por corte administrativo, mas porque passaram a ganhar a própria vida. E é exatamente esse o quadro que vimos na PNAD Contínua mais recente.
O pano de fundo: emprego em nível recorde
O Brasil registra hoje 103,1 milhões de pessoas ocupadas, o maior contingente da série histórica, com a taxa de desocupação em 5,4% — um dos menores patamares já medidos. São 5,9 milhões de desempregados, número que vem caindo trimestre após trimestre, e a renda real segue crescendo no acumulado de 12 meses.
Um mercado de trabalho tão apertado tem efeito direto sobre a assistência social. Não à toa, em 2024, uma parcela expressiva das vagas formais criadas no país (segundo dados do CAGED) foi ocupada por beneficiários do Bolsa Família. A chamada Regra de Proteção permite que quem consegue emprego continue recebendo o benefício por um tempo, suavizando a transição — mas o destino, para muitos, é a saída do programa rumo à carteira assinada.
É a dinâmica virtuosa que todo programa de transferência de renda deveria perseguir: menos gente dependendo do auxílio porque há mais gente trabalhando.
O detalhe de 2026
Há, porém, um ponto de atenção nos dados mais recentes. Depois de uma queda acentuada ao longo de 2025, o programa iniciou 2026 com leve alta. Nos últimos três meses, o número subiu de 18,71 milhões (dezembro de 2025) para 18,78 milhões (janeiro) e 18,84 milhões (fevereiro) — um acréscimo de 132 mil famílias no ano, alta de 0,7%.
É cedo para dizer se é uma reversão de tendência ou apenas ruído sazonal e efeito do encerramento do ciclo mais duro de revisão cadastral. Mas vale acompanhar: se o mercado de trabalho seguir tão forte, o esperado seria uma estabilização ou nova queda, e não crescimento.
O que fica
A leitura de fundo é positiva. A queda de 2,76 milhões de benefícios combina limpeza de um cadastro que havia sido inflado às vésperas da eleição de 2022 com um mercado de trabalho que absorve trabalhadores em ritmo recorde. Menos Bolsa Família, nesse contexto, significa em boa medida mais carteira assinada e mais renda do trabalho.
O desafio daqui para frente é duplo: manter a economia gerando emprego de qualidade — o que reduz estruturalmente a demanda por assistência — e preservar o programa focalizado em quem de fato precisa, sem repetir os inchaços eleitorais do passado. Quando o emprego cresce e a assistência encolhe pelos motivos certos, todo mundo ganha.
Dados mais atual:


