Em novembro de 1956, num congresso de químicos em Porto Alegre, um engenheiro subiu ao palco e prometeu não falar por mais de quarenta minutos. O que ele entregou naquela meia hora foi menos uma palestra técnica do que um manifesto sobre como um país periférico pode, deliberadamente, fabricar sua própria capacidade produtiva. O homem era Leopoldo Américo Miguez de Mello — o engenheiro químico que, formado ainda nos anos 1930, implantaria a Fábrica de Borracha Sintética, refinarias e dezenas de unidades industriais da Petrobras, e cujo nome batiza até hoje o CENPES. A epígrafe da conferência sintetiza tudo:
“O que nos deve realmente amedrontar é planejar empreendimentos que sejam pequenos para o Brasil. Nesta terra, até hoje, nada foi feito demasiadamente grande.”
Reler esse texto setenta anos depois é um exercício curioso. Miguez de Mello não conhecia a teoria da complexidade econômica — Hausmann e Hidalgo só a formalizariam meio século mais tarde. E, no entanto, a conferência inteira é uma descrição intuitiva e precisa daquilo que hoje chamaríamos de acumulação de capacidades, upgrading produtivo e formação de um espaço de produtos. Vale recuperar a história.
O argumento que importa: valor agregado, não barris
O fio condutor econômico da palestra é uma comparação simples e devastadora. Transformar petróleo em combustível, pelas operações normais de refino, agrega cerca de 150% de valor. Transformá-lo em produtos petroquímicos agrega, em média, mil e cem por cento. Nos Estados Unidos de 1955, a petroquímica já valia 4 bilhões de dólares consumindo apenas 1% do óleo bruto processado nas refinarias.
É exatamente o raciocínio que move qualquer discussão séria sobre desenvolvimento: o ponto não é extrair mais matéria-prima, é subir a escada produtiva. A mesma molécula que sai da refinaria como combustível barato pode reaparecer como fertilizante, plástico, fibra sintética, detergente, corante ou borracha — cada salto multiplicando o valor por unidade. Miguez de Mello entendia que a refinaria economizava ao Brasil mais de 25 milhões de dólares por ano em divisas; e afirmava, sem hesitar, que as indústrias petroquímicas satélites de Cubatão economizariam ainda mais. A petroquímica era o degrau seguinte.
A “reação em cadeia”: complexidade antes da palavra
O trecho mais notável, para quem trabalha com complexidade, é aquele em que ele descreve a natureza da própria indústria:
“…uma atividade cujo crescimento se assemelha a uma reação em cadeia, isto é, uma nova indústria dá nascimento a várias outras que por sua vez possibilitam muitas outras.”
Isso é, em linguagem de 1956, a ideia de que capacidades geram capacidades. Partindo de um punhado de moléculas básicas — eteno, propeno, buteno, benzeno, gás de síntese —, abre-se “um campo em leque”. Ele chega a observar que eteno e benzeno sustentam mais de 80% de toda a petroquímica. Dominar esses poucos nós, portanto, era condição para destravar centenas de ramos a jusante. É difícil não enxergar aí uma versão artesanal do product space: a noção de que certas posições no tecido produtivo são especialmente “centrais” porque conectam o país a tudo o mais que ele ainda não sabe fazer.
A engenharia institucional: o Estado produz o difícil, o privado diversifica
Aqui a história fica ainda mais sofisticada. A diretriz do Conselho Nacional do Petróleo e da Petrobras, reafirmada em 1953, não era estatizar a petroquímica inteira. Era o contrário: caberia à estatal produzir as matérias-primas básicas — os hidrocarbonetos elementares, no grau de pureza adequado — para que a iniciativa privada partisse daí “em leque”. A lei do monopólio, observa ele, foi “sábia ao deixar o campo da indústria petroquímica acessível ao capital privado”.
Daí a defesa das centrais de eteno: como nenhum produto final isolado justifica economicamente uma unidade de eteno, a solução era construir grandes centrais que abastecessem um conjunto inteiro de indústrias a custo baixo. Em vocabulário contemporâneo, o Estado fornecia o insumo de alto custo fixo e baixa apropriabilidade — o bem que o mercado, sozinho, subprovê — para que o setor privado florescesse na camada de cima. É uma política industrial cirúrgica, desenhada para criar ambiência e capacidades, não para substituir o mercado.
A parábola dos fertilizantes: por que planejar pequeno é o verdadeiro risco
Se há uma passagem que deveria ser lida em voz alta em todo debate sobre planejamento no Brasil, é a da Fábrica de Fertilizantes de Cubatão. Quando se projetou a fábrica para 100 toneladas de amônia por dia, pareceres “longos” sustentaram que aquilo era cinco vezes maior que o necessário — que o país jamais absorveria mais de 20 toneladas diárias. Quatro anos depois, o consumo já estava em 70 toneladas, mais de cem firmas se candidatavam à rede de distribuição, e a Petrobras já planejava ampliar para 150. O veredito de Miguez de Mello é uma aula de humildade ao contrário:
“Em 1952 fomos qualificados de extravagantes. Lamentamos apenas têrmos sido pouco exagerados.”
O diagnóstico por trás disso permanece atualíssimo. O Brasil consumia, segundo o Instituto Agronômico de Campinas, apenas 4,2% de seu potencial de fertilizantes nitrogenados. Extrapolar a demanda futura a partir da série histórica, num país de subconsumo reprimido, é garantir que se planeje sempre pequeno demais. A estatística olha para trás; a demanda reprimida explode para frente. “O futuro já chegou”, ele dizia — e, no entanto, o planejador tímido continuava preso aos números do passado.
Um homem pensando em décadas
A última parte da conferência é quase ficção científica industrial — e acertou em quase tudo o que importava. Miguez de Mello discute a obsolescência tecnológica acelerada (nos EUA, mais da metade da mão de obra industrial já fabricava produtos que não existiam 25 anos antes), a tese de que a própria indústria de refino tenderia a se transformar em indústria essencialmente petroquímica, e até o papel futuro da energia atômica e das radiações como catalisadores. Era, como diz sua biografia, um estrategista de “iniciativas arrojadas”, dono de uma visão extraordinária de futuro. A escolha do cracking de baixa pressão para Cubatão, ainda em 1949 — justamente para gerar mais gás residual e dar base “mais generosa” à petroquímica — mostra que a aposta na complexidade foi uma decisão de engenharia tomada com anos de antecedência.
Por que essa história ainda nos interessa
O que torna esse documento precioso não é a nostalgia. É o fato de ele registrar, com clareza incomum, o momento em que o Brasil decidiu, conscientemente, escalar a sua estrutura produtiva — e a lógica econômica que sustentava a decisão. Subir do barril ao polímero. Produzir o insumo central para destravar o leque. Planejar à frente da demanda, não atrás dela. E recusar a timidez estatística em nome de uma leitura correta do potencial reprimido.
Setenta anos depois, com a vantagem amarga da retrospectiva, sabemos que parte dessa ambição se realizou e parte se perdeu nas voltas posteriores da nossa trajetória. Mas a moldura intelectual de Miguez de Mello — capacidades que geram capacidades, valor agregado como objetivo, o Estado pavimentando o difícil para o privado diversificar — é exatamente a conversa que ainda precisamos ter. A frase com que ele abriu a palestra continua sendo, talvez, o melhor resumo de uma política de desenvolvimento que valha o nome: o que deve nos amedrontar não é ousar grande. É planejar pequeno para um país que nunca foi.
Texto aqui:


Creio que uma lição que fica é a de que países como o Brasil não avançam sendo tímidos nem projetando com base apenas na demanda passada; avançam quando investem em setores estratégicos, criam competências que destravam novas cadeias produtivas e planejam acima do presente, reconhecendo que o verdadeiro risco não é pensar grande, mas continuar pensando pequeno diante do potencial que existe.
Planejamento estadual na década de 1970: da base petrolífera à industrialização planejada da RMS
Na década de 1970, a Bahia consolidou uma mudança estrutural em sua economia: saiu de uma base predominantemente agroexportadora e comercial para uma estratégia de industrialização planejada, concentrada inicialmente na Região Metropolitana de Salvador, no Recôncavo e no eixo Camaçari–Aratu. A atual SEPLAN, criada em 3 de maio de 1971 como Secretaria do Planejamento, Ciência e Tecnologia — SEPLANTEC, nasceu justamente nesse contexto, com a função de coordenar planejamento, estudos, orçamento, ciência, tecnologia e articulação de projetos estruturantes. A tradição institucional, contudo, vinha de antes: a Bahia criou em 1955 a Comissão de Planejamento Econômico — CPE, dirigida por Rômulo Almeida, considerada uma das primeiras experiências institucionais de planejamento no país.
É importante fazer uma precisão histórica: a SEPLAN não criou a Petrobras nem a RLAM. A Petrobras foi criada em 1953, por lei federal, e a refinaria de Mataripe, futura RLAM, já havia sido construída antes e incorporada ao patrimônio da companhia em 1954. A Agência Nacional do Petróleo registra que a RLAM foi construída em 1950 e incorporada à Petrobras com a criação da empresa em 1953; a Assembleia Legislativa da Bahia também registra a RLAM como primeira refinaria nacional e marco da indústria brasileira.
O papel do planejamento estadual nos anos 1970 foi outro: transformar a vantagem petrolífera existente em estratégia de desenvolvimento industrial. A presença da RLAM no Recôncavo, a atuação da Petrobras e depois da Petroquisa criaram as condições materiais para a petroquímica: disponibilidade de derivados, nafta, infraestrutura energética, conhecimento técnico e uma base operária-industrial já em formação.
Como a SEPLAN/SEPLANTEC atuou nesse processo
A SEPLANTEC operou como órgão de planejamento e coordenação estratégica. Sua contribuição pode ser entendida em cinco frentes principais.
Primeiro, organizou a visão de longo prazo. O planejamento estadual passou a tratar a indústria como vetor de modernização econômica. A ideia era criar polos industriais capazes de concentrar infraestrutura, reduzir custos de implantação, atrair empresas privadas e articular investimentos estaduais, federais e internacionais.
Segundo, articulou estudos técnicos e bases territoriais. A tradição da CPE e dos planos de desenvolvimento anteriores já indicava a necessidade de industrializar o entorno de Salvador. Publicação recente da SEI registra que as bases para a diversificação econômica lançadas entre 1955 e 1961 culminaram nas iniciativas do Centro Industrial de Aratu, nos anos 1960, e do Polo Petroquímico de Camaçari, nos anos 1970.
Terceiro, integrou planejamento econômico, urbano e logístico. O Estado precisava definir áreas industriais, desapropriações, acessos rodoviários, infraestrutura de energia, água, saneamento, habitação de trabalhadores e conexão portuária. No caso de Camaçari, o processo incluiu a delimitação de área para o distrito industrial, estudo de viabilidade e elaboração de plano diretor para orientar a implantação.
Quarto, apoiou a articulação federativa. O Polo Petroquímico dependia de decisões da Petrobras, Petroquisa, Sudene, BNDE/BNB, Conselho de Desenvolvimento Industrial e grupos privados. O Governo da Bahia atuou para convencer o Governo Federal e empresários da viabilidade do projeto petroquímico baiano, apoiado em estudos técnicos e na disponibilidade de petróleo, gás, refinaria, porto e área industrial.
Quinto, vinculou ciência e tecnologia à industrialização. A própria criação da SEPLANTEC unia planejamento, ciência e tecnologia, o que era coerente com a estratégia de criar uma base produtiva moderna. A industrialização petroquímica exigia engenharia, pesquisa aplicada, formação técnica, controle ambiental e serviços especializados.
RLAM, Petrobras, CIA e Polo de Camaçari: uma cadeia histórica
A sequência estratégica pode ser lida assim:
Etapa Marco Relevância para a Bahia
1950 Entrada em operação da Refinaria de Mataripe/RLAM Criação da base petrolífera e de refino no Recôncavo.
1953–1954 Criação da Petrobras e incorporação da refinaria Integração da Bahia à política nacional do petróleo.
1955 Criação da CPE/Condeb Formação da tradição baiana de planejamento econômico.
1960s Implantação do CIA Primeiro grande polo industrial moderno da RMS.
1971 Criação da SEPLANTEC Institucionalização do planejamento estadual na década decisiva da industrialização.
1970s Estruturação do Polo Petroquímico de Camaçari Transformação da base petrolífera em cadeia petroquímica integrada.
1978 Início das operações do Polo de Camaçari Consolidação do primeiro complexo petroquímico planejado do país.
O Centro Industrial de Aratu funcionou como ensaio e plataforma inicial da política de polos industriais. Documento histórico do Senado registra que o CIA foi tratado como prioridade de governo e que seu plano diretor foi decisivo para convencer empresários e financiadores. O Porto de Aratu, por sua vez, aparece como infraestrutura fundamental para escoar granéis sólidos e líquidos da produção industrial.
O Polo Petroquímico de Camaçari representou o passo seguinte: não apenas instalar fábricas isoladas, mas criar um complexo integrado, com central de matérias-primas, utilidades, manutenção, serviços e indústrias de segunda geração. O COFIC informa que o Polo iniciou operações em 29 de junho de 1978 e é o primeiro complexo petroquímico planejado do país.
Resultado econômico
O efeito foi profundo. O CIA e o Polo de Camaçari redefiniram a economia baiana, elevaram o peso da indústria na arrecadação e criaram nova centralidade produtiva na RMS. Documento histórico do Senado registra que, em meados dos anos 1980, o Polo Petroquímico de Camaçari e o CIA respondiam por 30,6% do total do ICM arrecadado no estado, evidenciando a força fiscal da industrialização iniciada nos anos 1960 e consolidada nos anos 1970.
Formulação institucional sugerida
Na década de 1970, a SEPLAN, então SEPLANTEC, consolidou o planejamento estadual como instrumento de transformação econômica. A partir da base petrolífera criada pela RLAM, da presença da Petrobras e da experiência acumulada pela CPE, o Estado da Bahia estruturou uma estratégia de industrialização planejada, articulando território, infraestrutura, incentivos, ciência, tecnologia e negociação federativa.
Essa estratégia permitiu a implantação e consolidação do Centro Industrial de Aratu e do Polo Petroquímico de Camaçari, convertendo recursos naturais e ativos energéticos em cadeias industriais de maior valor agregado. O planejamento estadual não apenas acompanhou a industrialização: ele ajudou a desenhar sua localização, sua infraestrutura, sua governança e sua inserção na economia nacional.