Não existe livre mercado no mundo!

Em relevante texto sobre desenvolvimento econômico, Erik Reinert (1994) mostra como podemos usar as ideias de Michael Porter para entender a “microeconomia” do Desenvolvimento Econômico. O primeiro livro de Michael Porter sobre estratégia industrial (Porter, 1980) é, em muitos aspectos, uma lista de receitas e prescrições para se evitar estar em um negócio onde os pressupostos da economia neoclássica são válidos: como evitar trabalhar onde não há barreiras à entrada, economias de escala e escopo e onde a informação é razoavelmente perfeita. Entender o subdesenvolvimento é compreender o que acontece nas indústrias onde as estratégias de Porter não funcionam – as “dog industries” que ele diz a seus clientes para se manterem longe (Porter, 1980). “Star industries” são atividades onde em geral predominam competição imperfeita e todas as características desse tipo de estrutura de mercado (importantes curvas de aprendizagem, rápido progresso técnico, alto conteúdo de R&D, grandes possibilidades de economias de escala e escopo, alta concentração industrial, grandes barreiras à entrada, diferenciação por marcas, etc). Esse grupo de atividades de alto valor agregado se contrapõe às atividades de baixo valor agregado “dog industries”, em geral praticadas em países pobres ou de renda média com típica estrutura de competição perfeita (baixo conteúdo de R&D, baixa inovação tecnológica, informação perfeita, ausência de curvas de aprendizado e possibilidades de divisão do trabalho (Reinert e Katel 2010, pg 7.)

No livro “A vantagem competitiva das nações”, Porter leva as conclusões tiradas da arena da competição industrial para o nível nacional (Porter, 1990). O conselho que ele dá às nações é essencialmente o mesmo que ele dá às corporações: cultivar “star industries” e manter-se longe das “dog industries”. No entanto, a demanda mundial agregada consiste em produtos tanto de indústrias “star” como de indústrias “dog”. Limitados por uma demanda de produtos “star”, os vencedores na visão de Porter só podem ser uma pequena fração da população mundial. Quais são as soluções para o resto, a grande maioria da população mundial? A “competitividade” no esquema de Porter consiste em posicionar seu próprio país nas atividades de “stars”. Segundo Erik Reinert, as recomendações da estratégia nacional de Porter são essencialmente uma versão mais sofisticada das recomendações das escolas de pensamento mercantilistas e cameralistas.

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6 thoughts on “Não existe livre mercado no mundo!”

  1. Excelente texto do prof Paulo Gala. A receita para o crescimento e desenvolvimento do Brasil e de outros países na mesma situação estão disponíveis. O grande problema é a implementação dessa receita, pois depende do apoio do Estado . A falta de conhecimento de grande parcela da classe política brasileira sobre assuntos econômicos em geral é gigantesca.

  2. Os seres humanos são dotados das mesmas características e devem buscar o aprimoramento, senão teremos seremos humanos de categorias inferiores e superiores, o que está errado, pois todos os povos devem buscar a evolução. O relaxamento quanto a isso se tornou evidente na crise atual mostrando países incapazes de produzir manufaturas simples e essenciais como máscaras preventivas.

  3. CR8 é concentration ratio das 8 maiores empresas. é uma medida de concentração de mercado. não são países.

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