As ideias apresentadas por Erik Reinert e Michael Porter oferecem uma perspectiva rica para entender o desenvolvimento econômico ao analisar as dinâmicas entre indústrias de alto e baixo valor agregado, além das implicações para a estratégia nacional. O trabalho de Porter, que inicialmente se concentrou na competição industrial, é ampliado para o nível nacional no livro “A Vantagem Competitiva das Nações”, revelando tanto suas oportunidades quanto limitações em contextos globais.
1. A Microeconomia do Desenvolvimento Econômico
Reinert utiliza as ideias de Porter para explorar a “microeconomia” do desenvolvimento econômico, destacando como as estratégias industriais moldam o progresso das nações. Porter, em seu primeiro livro sobre estratégia industrial (1980), propôs ferramentas para evitar os mercados onde os pressupostos da economia neoclássica prevalecem, como:
- Competição perfeita.
- Ausência de barreiras à entrada.
- Baixa possibilidade de inovação ou diferenciação.
Segundo Reinert, entender o subdesenvolvimento é analisar o que acontece nas indústrias onde essas estratégias falham — as chamadas “dog industries”. Essas indústrias, comuns em países de baixa ou média renda, possuem:
- Baixo conteúdo de pesquisa e desenvolvimento (R&D).
- Baixa inovação tecnológica.
- Ausência de curvas de aprendizado ou economias de escala.
Por outro lado, as “star industries” apresentam características que promovem alto valor agregado, como:
- Curvas de aprendizagem significativas.
- Rápido progresso técnico.
- Grandes barreiras à entrada.
- Alta concentração industrial e diferenciação por marcas.
2. A Competitividade Nacional na Perspectiva de Porter
No livro “A Vantagem Competitiva das Nações” (1990), Porter aplica sua análise da competição industrial ao nível nacional. Ele argumenta que o sucesso econômico das nações depende de cultivar indústrias de alta competitividade global, ou seja, as “star industries”. Os pilares dessa estratégia incluem:
- Foco em inovação tecnológica.
- Apoio governamental para atividades de alto valor agregado.
- Desenvolvimento de economias de escala e escopo.
O conselho de Porter para as nações segue a mesma lógica que ele oferece às corporações: maximizar sua posição competitiva investindo em setores de alto valor e evitando os de baixo valor.
3. Limitações e Desafios da Estratégia de Porter
Reinert aponta uma limitação crítica na abordagem de Porter: a demanda global agregada é composta por produtos tanto de indústrias “star” quanto de “dog industries”. Isso implica que:
- Nem todos os países podem se especializar nas “star industries”, pois a demanda global por produtos de alta tecnologia é limitada.
- A lógica competitiva de Porter cria um desequilíbrio estrutural, onde apenas uma pequena parcela dos países pode ser “vencedora”, deixando grande parte da população mundial dependente de setores de baixo valor agregado.
Essa visão ressalta uma falha fundamental no modelo de Porter para lidar com os desafios econômicos de países em desenvolvimento. A estratégia sugerida por Porter, segundo Reinert, é uma versão modernizada do pensamento mercantilista e cameralista, que privilegia o acúmulo de riqueza em atividades econômicas estratégicas, muitas vezes à custa de economias menos desenvolvidas.
4. Perspectivas para o Desenvolvimento Global
A análise de Reinert sugere que, enquanto a estratégia de Porter é eficaz para países ou corporações já posicionados em setores de alta competitividade, ela não oferece soluções práticas para os países que não têm acesso ou capacidade para competir nesses mercados. Para esses países, alternativas incluem:
- Políticas industriais ativas: Investir em setores estratégicos para criar as condições necessárias para competir em indústrias de alto valor.
- Diversificação econômica: Desenvolver setores de médio valor agregado que possam funcionar como transição para atividades mais sofisticadas.
- Fortalecimento das capacidades locais: Melhorar o capital humano, a infraestrutura e o acesso à tecnologia.
Conclusão
A aplicação das ideias de Michael Porter ao desenvolvimento econômico, conforme interpretadas por Erik Reinert, destaca uma dicotomia fundamental no sistema global: enquanto alguns países podem prosperar em indústrias de alta tecnologia, a maioria permanece dependente de setores menos lucrativos. Para reduzir as desigualdades globais, é necessário repensar as estratégias de desenvolvimento econômico, equilibrando a busca por competitividade com a inclusão de economias emergentes em cadeias produtivas mais sofisticadas. O desafio é criar um modelo que permita uma distribuição mais equitativa dos ganhos econômicos e tecnológicos, sem excluir grande parte da população mundial da oportunidade de progresso.
Em relevante texto sobre desenvolvimento econômico, Erik Reinert (1994) mostra como podemos usar as ideias de Michael Porter para entender a “microeconomia” do Desenvolvimento Econômico. O primeiro livro de Michael Porter sobre estratégia industrial (Porter, 1980) é, em muitos aspectos, uma lista de receitas e prescrições para se evitar estar em um negócio onde os pressupostos da economia neoclássica são válidos: como evitar trabalhar onde não há barreiras à entrada, economias de escala e escopo e onde a informação é razoavelmente perfeita. Entender o subdesenvolvimento é compreender o que acontece nas indústrias onde as estratégias de Porter não funcionam – as “dog industries” que ele diz a seus clientes para se manterem longe (Porter, 1980). “Star industries” são atividades onde em geral predominam competição imperfeita e todas as características desse tipo de estrutura de mercado (importantes curvas de aprendizagem, rápido progresso técnico, alto conteúdo de R&D, grandes possibilidades de economias de escala e escopo, alta concentração industrial, grandes barreiras à entrada, diferenciação por marcas, etc). Esse grupo de atividades de alto valor agregado se contrapõe às atividades de baixo valor agregado “dog industries”, em geral praticadas em países pobres ou de renda média com típica estrutura de competição perfeita (baixo conteúdo de R&D, baixa inovação tecnológica, informação perfeita, ausência de curvas de aprendizado e possibilidades de divisão do trabalho (Reinert e Katel 2010, pg 7.)
No livro “A vantagem competitiva das nações”, Porter leva as conclusões tiradas da arena da competição industrial para o nível nacional (Porter, 1990). O conselho que ele dá às nações é essencialmente o mesmo que ele dá às corporações: cultivar “star industries” e manter-se longe das “dog industries”. No entanto, a demanda mundial agregada consiste em produtos tanto de indústrias “star” como de indústrias “dog”. Limitados por uma demanda de produtos “star”, os vencedores na visão de Porter só podem ser uma pequena fração da população mundial. Quais são as soluções para o resto, a grande maioria da população mundial? A “competitividade” no esquema de Porter consiste em posicionar seu próprio país nas atividades de “stars”. Segundo Erik Reinert, as recomendações da estratégia nacional de Porter são essencialmente uma versão mais sofisticada das recomendações das escolas de pensamento mercantilistas e cameralistas.
Como os países ricos ficaram ricos? E por que os pobres continuam pobres?
Curso EAD 4 lições para entender a guerra industrial no mundo



Excelente texto do prof Paulo Gala. A receita para o crescimento e desenvolvimento do Brasil e de outros países na mesma situação estão disponíveis. O grande problema é a implementação dessa receita, pois depende do apoio do Estado . A falta de conhecimento de grande parcela da classe política brasileira sobre assuntos econômicos em geral é gigantesca.
Os seres humanos são dotados das mesmas características e devem buscar o aprimoramento, senão teremos seremos humanos de categorias inferiores e superiores, o que está errado, pois todos os povos devem buscar a evolução. O relaxamento quanto a isso se tornou evidente na crise atual mostrando países incapazes de produzir manufaturas simples e essenciais como máscaras preventivas.
Gala, esse excerto faz parte de qual curso ofertado por você?
Obrigado.
Olá! Desse curso aqui: https://paulogala.com.br/cronicas-da-guerra-industrial-no-mundo/
CR8 é concentration ratio das 8 maiores empresas. é uma medida de concentração de mercado. não são países.
posso usar para países?