Nem Toda Desindustrialização é Igual: Lições do Caso Brasileiro (1985–2022)

O trabalho de Paulo César Morceiro, Milene Tessarin e André Nassif oferece uma análise inovadora da desindustrialização brasileira a partir de uma abordagem setorial e tecnológica. Diferentemente da literatura que trata o fenômeno de forma agregada, os autores demonstram que a composição interna da manufatura é decisiva para compreender a qualidade e as causas do declínio industrial. Com base em dados inéditos da RAIS entre 1985 e 2022, o estudo identifica quais setores se desindustrializaram “normalmente” — após atingirem um grau razoável de maturidade — e quais passaram por desindustrialização prematura, ou seja, em níveis de renda per capita ainda baixos.

O artigo começa com uma revisão histórica sobre o papel da manufatura no desenvolvimento econômico. A indústria foi o motor dos ganhos de produtividade, inovação e ascensão da classe média nas economias hoje desenvolvidas. Entretanto, nas últimas décadas, a desindustrialização passou a ocorrer antes que países em desenvolvimento atingissem níveis elevados de renda, gerando preocupação com a chamada “armadilha da renda média”. O estudo adota o conceito de curva em U invertido, que relaciona o crescimento da participação industrial no emprego e no PIB até certo ponto de renda, a partir do qual o setor declina.

Os autores distinguem dois tipos de desindustrialização. A normal, típica dos países ricos, ocorre em altos níveis de renda per capita e reflete ganhos de produtividade e migração para serviços sofisticados. Já a prematura caracteriza-se pela perda precoce da base manufatureira, impedindo a consolidação de setores tecnológicos e de um sistema nacional de inovação robusto. No Brasil, o processo começou por volta de 1986, quando a renda per capita ainda era modesta — cerca de US$ 13 mil em paridade de poder de compra — muito abaixo dos níveis observados nos países industrializados.

A análise empírica mostra que a participação do emprego manufatureiro caiu de 27,7% em 1986 para 15,1% em 2022, embora o número absoluto de empregos tenha crescido. A desindustrialização brasileira, portanto, foi relativa — o setor industrial cresceu, mas muito menos que o restante da economia. O fenômeno pode ser dividido em três fases: uma queda forte até o fim dos anos 1990; uma década de estabilidade (1999–2008); e nova redução gradual desde então.

Ao desagregar por intensidade tecnológica, os autores revelam que a desindustrialização é fortemente assimétrica. Setores de baixa tecnologia — como têxtil, vestuário, madeira e calçados — perderam espaço continuamente, em linha com o padrão esperado de países que já atingiram maturidade industrial. Já os setores de média e alta tecnologia, como metalurgia, química, máquinas e equipamentos, eletrônicos e veículos, sofreram quedas muito mais prematuras, em níveis de renda insuficientes para tal transição. Essa perda precoce de segmentos dinâmicos compromete a capacidade de inovação e o crescimento de longo prazo.

Em termos de contribuição, cerca de 70% da desindustrialização total derivou de setores de baixa e média-baixa tecnologia, enquanto apenas 30% veio dos de maior intensidade tecnológica. No entanto, o impacto qualitativo é o inverso: o declínio dos setores de alta tecnologia é mais danoso, por reduzir a difusão de progresso técnico e a geração de empregos qualificados. O estudo desenvolve um método para classificar cada setor como “normal” ou “prematuro”, comparando a renda per capita brasileira no início do declínio com estimativas internacionais.

Os resultados mostram que apenas três setores — alimentos e bebidas, têxtil e vestuário, e madeira e móveis — se desindustrializaram de modo “normal”. Todos os demais, especialmente química, metalurgia, veículos e equipamentos elétricos e eletrônicos, o fizeram de forma prematura, muitas vezes quando o país possuía apenas um terço ou um quinto da renda per capita esperada para o início desse processo. Essa constatação reforça o diagnóstico de que o Brasil interrompeu seu ciclo de aprendizado produtivo antes de consolidar sua base tecnológica.

As implicações de política industrial são claras. O estudo defende que as políticas de reindustrialização devem ser setoriais e orientadas por intensidade tecnológica, evitando o tratamento uniforme dado à indústria como um todo. Setores maduros de baixa tecnologia requerem políticas de curto prazo — como câmbio competitivo e crédito —, enquanto os de alta tecnologia demandam investimentos em inovação, P&D e integração com universidades e centros tecnológicos. Além disso, é necessário incentivar as filiais de multinacionais a reinvestirem no país e transferirem conhecimento tecnológico, reduzindo a dependência externa.

Por fim, os autores argumentam que compreender os diferentes graus de “prematuridade” é essencial para redesenhar a estratégia de desenvolvimento brasileira. A desindustrialização extrema dos setores de maior intensidade tecnológica representa uma espécie de “parto prematuro econômico”: o país perdeu a base produtiva antes de amadurecer. Reverter esse quadro exige uma combinação de políticas cambiais, industriais e de ciência e tecnologia focadas em reerguer os elos de maior complexidade produtiva, condição indispensável para sustentar o crescimento e fortalecer o Sistema Nacional de Inovação.

Em suma, o estudo conclui que “nem toda desindustrialização é igual”. No caso brasileiro, a desindustrialização não apenas foi precoce, como desigual entre setores, e sua reversão requer abandonar o diagnóstico agregado para adotar uma abordagem seletiva, capaz de identificar onde o país ainda pode reconstruir sua base tecnológica e produtiva. 

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