O trabalho Kaldor’s transition from growth to development economics: is there a role for Prebisch and ECLA? — Helder Lara Ferreira-Filho e José Luis da Costa Oreiro é leitura obrigatória para quem gosta de história das ideias! O artigo está na Journal of Post Keynesian Economics e analisa a mudança de ênfase de Nicholas Kaldor de modelos formais de crescimento para abordagens de economia do desenvolvimento, incluindo o papel de influências como Prebisch e a CEPAL/ECLA.
Introdução: O Enigma da Riqueza das Nações
Por que alguns países decolam rumo à prosperidade enquanto outros permanecem presos em ciclos de estagnação? Nicholas Kaldor, um gênio inquieto e influente, recusou-se a aceitar as respostas fáceis da economia ortodoxa. Ele protagonizou uma transição fascinante da “economia pura”, baseada em deduções lógicas abstratas, para uma “economia aplicada” que abraça a sociologia e a história.
Esta jornada transformou um teórico do equilíbrio em um mestre do desenvolvimento econômico. Sua mudança foi catalisada pelo confronto direto com a realidade das nações periféricas. Ao observar a complexidade do mundo real, Kaldor entendeu que o crescimento não é apenas uma questão de números, mas de estruturas sociais e políticas.
O Fim da “Monoeconomia”: Nem Todas as Regras São Iguais
Kaldor foi um dos primeiros grandes economistas a rejeitar a chamada “tese da monoeconomia”. Como definido por Albert Hirschman ([1979] 2013), essa tese sustenta que um único conjunto de princípios econômicos se aplica universalmente a qualquer país. Em 1956, a convite de Raúl Prebisch, Kaldor visitou a CEPAL em Santiago e percebeu que modelos para nações ricas falhavam na periferia.
Essa imersão permitiu que ele absorvesse a lente histórico-estrutural latino-americana. Embora a viagem ao Chile tenha sido o estopim, a conexão com Celso Furtado consolidou-se na conferência da IEA no Rio em 1957. Posteriormente, Furtado visitou Cambridge entre 1957 e 1958, aprofundando o diálogo entre o pensamento de Kaldor e o estruturalismo.
O “Gargalo das Elites”: O Problema do Consumo de Luxo
Ao analisar o Chile, Kaldor identificou que o subdesenvolvimento era alimentado pelo comportamento da classe capitalista local. Seu diagnóstico foi tão contundente que o estudo original foi bloqueado por três anos antes de ser publicado. As propostas de reforma tributária eram consideradas “esquerdistas” demais para as elites políticas da época.
O diagnóstico de Kaldor revelou pontos brutais sobre a economia chilena:
- Dissipação do Excedente: A classe capitalista chilena consumia cerca de dois terços de sua renda bruta.
- Consumo de Luxo: Em vez de reinvestir em capacidade produtiva, a elite dissipava a riqueza em bens supérfluos.
- Reforma Tributária Necessária: Ele propôs uma tributação progressiva severa para forçar o reinvestimento e reduzir a desigualdade.
Sobre sua capacidade de sintetizar essas realidades, o historiador G. Harcourt destacou sua:
“remarkable ability to pick out the gist of other’s insights and systems and to integrate them into his own, always, original and stimulating, views of the world”.
A Indústria como Motor Único: A Lei de Verdoorn e a Maturidade
Kaldor abandonou a ideia de “vantagem comparativa” estática em favor da industrialização acelerada. Influenciado por Allyn Young, ele aplicou a Lei de Verdoorn, que relaciona o aumento da produtividade diretamente à taxa de crescimento do produto industrial. Para ele, a indústria gera retornos crescentes dinâmicos que a agricultura, com seus limites naturais, não consegue replicar.
Em suas palestras na Universidade Cornell em 1967, ele detalhou as quatro etapas para a maturidade econômica:
- Substituição de importações (ISI) de bens de consumo básicos.
- Tornar-se um exportador líquido de bens de consumo manufaturados.
- Substituição de importações no setor de bens de capital.
- Consolidação como exportador líquido de bens de capital sofisticados.
Kaldor usou o Japão como o exemplo máximo de sucesso ao atingir a quarta etapa. Em contraste, criticou nações latino-americanas que estagnaram em um crescimento lento após a fase inicial de industrialização.
A Armadilha do Balanço de Pagamentos e a Inflação Estrutural
A influência da CEPAL levou Kaldor a ver a restrição externa como o principal limite ao crescimento. Ele entendia que o desenvolvimento gera uma fome de importações que as exportações básicas raramente conseguem saciar. Para resolver isso, ele defendia um “protecionismo moderado e seletivo”, rejeitando o protecionismo “indiscriminado ou violento” que criava indústrias ineficientes.
Sua visão sobre a inflação também era profundamente estruturalista e divergia das explicações puramente monetárias. Ele identificou a ineleasticidade da oferta de alimentos e os mecanismos inerciais como as verdadeiras causas do aumento de preços no Chile. Desvalorizações cambiais, segundo ele, muitas vezes falhavam ao serem neutralizadas pela inflação de custos, exigindo planejamento estrutural em vez de apenas restrição monetária.
O Legado de uma Mente Aberta: Da Teoria à Realidade Brutal
Kaldor tornou-se um crítico feroz da economia de equilíbrio, que considerava irrelevante para o mundo real. Ele aprendeu que o desenvolvimento exige transformar instituições, políticas tributárias e a base produtiva de forma coordenada. Sua frustração com as elites que bloqueavam reformas o aproximou definitivamente da economia política de Prebisch e Furtado.
Para Kaldor, a acumulação de capital sozinha não garante o progresso sem uma mudança estrutural profunda. Ele integrou a política à análise econômica, reconhecendo que o poder das classes proprietárias molda o destino das nações. Sua trajetória prova que a ciência econômica atinge seu auge quando se permite ser contaminada pela observação empírica.
Conclusão: O Desafio Continua
A jornada de Nicholas Kaldor simboliza a evolução da economia do “crescimento” abstrato para a economia do “desenvolvimento” aplicado. Suas lições de 1956 sobre o comportamento das elites e os gargalos externos permanecem inquietantemente atuais. A transição de um teórico puro para um pensador estruturalista deixou um legado essencial para entender a periferia global.
Será que a incapacidade de certas nações de avançar para as etapas superiores da indústria explica sua dependência tecnológica hoje? O legado de Kaldor sugere que, sem enfrentar o poder das elites e a estrutura produtiva, as fórmulas econômicas tradicionais continuarão falhando.

