O Brasil é um celeiro do mundo — mas isso não basta!

*escrito com Gustavo Pauro

O Brasil produz 42% de toda a soja do mundo. É o maior exportador de carne bovina, de frango, de açúcar. Em 2024, o agronegócio faturou US$ 164 bilhões em exportações. Os números são reais, são impressionantes, e merecem ser comemorados.

Mas há uma distinção que o debate público raramente faz — e que muda tudo: celeiro não é supermercado.

Celeiro armazena grãos. Supermercado oferece diversidade, processamento, marcas, logística, e entrega ao consumidor final. O Brasil chegou perto de se tornar o maior celeiro do mundo. Ainda não decidiu o que quer ser além disso.


Produzir muito não é o mesmo que decidir

Há outra dimensão que o mito do celeiro esconde: produção não é soberania.

O Brasil exporta a maior lavoura de soja do mundo usando sementes patenteadas por Bayer, Corteva e Syngenta. Colhe essa soja com máquinas da John Deere e da CNH. Nutre o solo com fertilizantes importados — 85% do total consumido vem de fora, sendo 97% do potássio importado, com 40% proveniente da Rússia.

Quando o conflito russo-ucraniano estourou em 2022, o preço internacional da ureia — principal fertilizante nitrogenado — dobrou em menos de um ano. O maior produtor de soja do mundo sentiu o impacto direto de uma guerra a 12 mil quilômetros de distância. Isso não é soberania produtiva. É processamento de insumos externos em terra brasileira.


73% da soja vai para um único comprador

A concentração de mercado adiciona mais uma camada de fragilidade. Em 2024, 73% das exportações brasileiras de soja foram para a China. Em 2025, esse número se aproximou de 80%.

O segundo maior comprador — a Espanha — absorveu apenas 5% do volume.

Depender de um único comprador para quase toda a sua principal commodity de exportação não é uma posição de força. É uma vulnerabilidade disfarçada de sucesso. A China, por sua vez, tem metas públicas de reduzir essa dependência — com investimentos em produção doméstica e em fornecedores alternativos na África e na América do Sul.

Uma mudança estrutural na demanda chinesa não teria prazo razoável de ajuste para o produtor brasileiro.


O que falta não é produção — é complexidade

A teoria econômica de Hausmann e Hidalgo sobre complexidade econômica oferece um diagnóstico preciso: países que chegam à fronteira de sua especialização primária precisam adicionar camadas de sofisticação ao modelo existente — não abandoná-lo.

Para o Brasil, isso significa quatro movimentos:

  1. Industrializar a jusante — transformar mais soja em proteína isolada antes de exportar; mais cana em bioquímicos; mais couro e frango em produtos com marca e margem.
  2. Reduzir a dependência de insumos — o Plano Nacional de Fertilizantes aponta a direção certa, mas o ritmo de implementação ainda é insuficiente.
  3. Construir tecnologia própria — em defensivos, genética vegetal, e agricultura digital. Isso requer política de ciência e tecnologia com horizonte de uma geração, não apenas crédito de curto prazo.
  4. Diversificar mercados — o crescimento dos embarques para Japão, Vietnã e Indonésia é promissor, mas ainda modesto frente à concentração na China.

O mito que dispensa perguntas

O problema do mito do celeiro não é que seja falso — é que é parcialmente verdadeiro. E verdades parciais são as mais perigosas quando substituem o pensamento estratégico.

Quando um país se define como celeiro do mundo, ele implicitamente responde a perguntas que ainda não foram feitas: para quem se produz? Quem captura o valor? Com que insumos, a que preço, com que estabilidade geopolítica?

O Brasil não precisa deixar de ser uma potência agrícola para se tornar uma potência alimentar. Mas precisa perceber que são coisas diferentes — e que a segunda exige política industrial, não apenas vocação geográfica.

Celeiro é o ponto de partida. Supermercado — com diversidade, processamento, marcas e soberania sobre a cadeia — é o destino.


Paulo Gala é professor de Economia na FGV/EESP e coordenador da Escola de Complexidade Econômica.

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