Acaba de sair um estudo importantíssimo do INPI, elaborado como suplemento brasileiro ao World Intangible Investment Highlights 2026 (OMPI / Luiss Business School): “O Brasil no Cenário Global de Investimentos em Intangíveis”. Os números surpreendem — e ajudam a repensar o debate sobre política econômica e industrial no Brasil.
Brasil no “G7” da economia intangível
O primeiro grande achado: o Brasil está entre as 7 maiores economias do mundo em investimento intangível, com US$ 312 bilhões em 2023 (em paridade de poder de compra) — praticamente empatado com o Canadá e logo atrás da Itália. Para se ter uma ideia, o investimento intangível da Índia é cerca de um quarto do brasileiro.
Esse investimento em software, bases de dados, marcas, design, P&D e capital organizacional já representa 7,6% do PIB brasileiro. É mais do que todo o setor agropecuário do país (6,0% do PIB), mais que o setor financeiro (6,6%) e mais que o dobro das indústrias extrativas, como mineração e petróleo (3,7%). Ou seja: num país que ainda se enxerga — e é enxergado — como exportador de commodities, os ativos baseados em conhecimento já pesam mais na economia do que o agro e a mineração.
E tem mais: o Brasil é o caso mais nítido, entre as 29 economias do estudo, de investimento intangível crescendo (2,8% a.a. entre 2013 e 2023) enquanto o investimento tangível encolhe (-1,5% a.a. entre 2011 e 2021). O intangível também se mostrou mais resiliente à crise da pandemia, liderando a recuperação em 2021.
Marcas: o destaque brasileiro
O tema especial da edição 2026 do relatório é o investimento em marcas — categoria que ultrapassou US$ 1 trilhão globalmente pela primeira vez. E aqui o Brasil brilha: somos a 5ª maior economia do mundo em investimento absoluto em marcas (US$ 79 bilhões em 2023), atrás apenas de EUA, Reino Unido, Japão e Alemanha — e à frente de França, Itália, Espanha e Canadá.
As marcas respondem por 25% do investimento intangível brasileiro — quase 1,7 vez a média mundial e acima até do Reino Unido, terra das grandes agências de branding. A literatura associa esse padrão de brand-building em economias emergentes à necessidade de superar o chamado “efeito país de origem”: a tendência dos consumidores de avaliar produtos de países de renda média como de qualidade inferior, mesmo quando a qualidade real é comparável. As empresas brasileiras investem pesado em marca justamente para subir na cadeia de valor.
Há, porém, um contraponto que não pode passar despercebido: enquanto marcas e capital organizacional crescem, o investimento em P&D recuou 3,4% ao ano entre 2013 e 2023 e responde por apenas 6,6% do investimento intangível brasileiro — muito abaixo da média das 29 economias. O crescimento brasileiro em intangíveis tem sido puxado por ativos de natureza organizacional e digital, não por pesquisa e desenvolvimento. É a velha história da economia que não aprende: construímos marcas e estruturas, mas seguimos investindo pouco na fronteira tecnológica, onde se constrói complexidade produtiva de verdade.
A economia invisível: R$ 546,5 bilhões fora das estatísticas
O terceiro achado é talvez o mais provocador — e justifica o subtítulo do relatório global, Better Data for Better Policy. Estima-se que 71,5% do investimento intangível brasileiro não aparece nas Contas Nacionais oficiais — quase dez pontos percentuais acima da média mundial (62%).
Em valores absolutos, estamos falando de R$ 546,5 bilhões em 2023 — o equivalente a 5,0% do PIB e a 30,4% da Formação Bruta de Capital Fixo oficial do país. Se esses investimentos fossem plenamente incorporados às estatísticas, a taxa de investimento da economia brasileira saltaria de 16,4% para 21,4% do PIB.
Ou seja: um pedaço enorme da economia do conhecimento no Brasil segue invisível nas estatísticas oficiais. Investimos mais do que os números mostram — só que em ativos que o Sistema de Contas Nacionais ainda não sabe medir: marcas, capital organizacional, design.
O que isso significa para a política econômica
Os dados sugerem uma revisão do nosso repertório de políticas. Historicamente, em períodos de desaceleração, o Brasil recorre a políticas anticíclicas centradas no consumo das famílias — crédito, incentivos a bens duráveis. Funcionam no curto prazo, mas antecipam consumo, derrubam poupança e pouco constroem para o futuro.
Os intangíveis mostram uma dinâmica diferente: resilientes a crises, sustentam o investimento total mesmo em cenários adversos. São exatamente o tipo de ativo que gera aprendizado, sofisticação produtiva e complexidade econômica — o caminho para escapar da armadilha das commodities e da renda média. O desafio agora é dobrar a aposta onde estamos fracos (P&D) sem perder a força onde já somos bons (marcas e capital organizacional). E, claro, começar a medir direito o que hoje não medimos. Melhores dados para melhores políticas.
Fonte: INPI (2026). O Brasil no Cenário Global de Investimentos em Intangíveis. Suplemento brasileiro ao World Intangible Investment Highlights 2026 (OMPI / Luiss Business School).
https://www.gov.br/inpi/pt-br/inpi-data/estudos/WIIH2026_Suplemento_Brasil_INPI.pdf

