Power and Plenty: Trade, War, and the World Economy in the Second Millennium, de Ronald Findlay e Kevin H. O’Rourke, é uma análise abrangente das dinâmicas econômicas globais e suas interações com conflitos e políticas ao longo dos últimos mil anos. O livro explora como o comércio e a guerra moldaram o crescimento econômico e a distribuição de poder entre civilizações e impérios.
Alguns dos principais temas abordados no livro incluem:
1. A Interdependência entre Comércio e Poder Militar: Findlay e O’Rourke argumentam que o comércio internacional foi frequentemente impulsionado por interesses militares e expansionistas. Impérios como os de Roma, China e, mais tarde, os europeus, usaram suas forças militares para estabelecer e proteger rotas comerciais, assegurando o acesso a recursos e mercados estratégicos.
2. A Ascensão do Ocidente: Um dos argumentos centrais é que o comércio europeu foi decisivo para a ascensão do Ocidente. A expansão marítima dos séculos XV e XVI permitiu que países europeus acessassem novos mercados e fontes de riqueza nas Américas e na Ásia, acumulando capital que impulsionou suas economias e financiou a Revolução Industrial.
3. Globalização e Desigualdade: O livro investiga como os primeiros episódios de globalização, especialmente a partir do século XIX, não apenas aumentaram o comércio, mas também geraram desigualdades significativas entre e dentro das nações. A integração econômica mundial beneficiou mais as economias europeias, deixando outras regiões marginalizadas ou subordinadas a interesses coloniais.
4. Os Efeitos da Guerra na Economia Global: Findlay e O’Rourke mostram como as grandes guerras e conflitos, como as Guerras Napoleônicas e as Guerras Mundiais, interromperam o comércio e causaram transformações econômicas globais. Esses conflitos não apenas mudaram o equilíbrio de poder, mas também alteraram estruturas econômicas, com a expansão do papel do Estado e o protecionismo em tempos de crise.
5. Impacto das Inovações e da Revolução Industrial: A obra enfatiza que as inovações tecnológicas e os avanços da Revolução Industrial foram determinantes para o crescimento econômico sustentável no longo prazo. A tecnologia aumentou a produtividade e reduziu os custos de transporte, facilitando o comércio e criando interdependências econômicas mais complexas.
Power and Plenty é uma obra essencial para entender como o comércio, a tecnologia e o conflito moldaram a economia global moderna. Findlay e O’Rourke sugerem que os ciclos de globalização e desglobalização são uma constante, influenciados por forças econômicas e políticas complexas que continuam a operar na economia mundial atual.
Exemplos de política industrial e comércio no desenvolvimento de países
*escrito por Felipe Augusto
Tomemos os casos mais impressionantes de desenvolvimento recente, como Taiwan, Coreia do Sul e China: nenhum se tornou rico antes de implementar políticas industirais. Coreia e Taiwan implementaram políticas desse tipo quando seus países eram extremamente pobres. Entre as mais transformadoras, a HCI (1973) e a de P&D em eletrônicos do ITRI (1974) ocorreram quando os países tinham menos de 40% da renda per capita atual do Brasil. E, como mostra Naughton, a intensificação das políticas de desenvolvimento produtivo na China (as mesmas que agora preocupam o Ocidente e ameaçam sua hegemonia) ocorreu a partir de 2005, quando o país tinha menos de 1/2 da renda per capita do Brasil. Já ficamos para trás. utilizamos intensamente essas políticas no período mais bem-sucedido de catching-up (1930-1980). E a corrupção? A Coreia é notável pela corrupção envolvendo grandes empresas e Estado: dos 7 últimos presidentes, 5 foram condenados por corrupção, mas o debate não foi interditado por lá. A corrupção era também disseminada na era de ouro dos EUA, e o país não se livrou de ineficiências. Aliás, por que corrupção/incapacidade não preocupam quando são feitas políticas liberais como privatizações?
E a educação? Todos os casos bem-sucedidos recentes fizeram as duas coisas ao mesmo tempo, e nenhum deles tinha índices educacionais excepcionais quando decolaram. Empresas são escolas que geram/catalisam o aprendizado. Sem empresas fortes, há fuga de cérebros. Sobre protecionismo: EUA na sua era de ouro (1870~1914) manteve algumas das mais altas tarifas do mundo, especialmente se comparadas com as dos principais concorrentes. Hoje os EUA retomaram parte dessas políticas. Não se trata dos EUA estarem fazendo uma escolha errada. Isso é mais velho que andar pra frente. Sempre que um país desafia a potência hegemônica, o liberalismo perde relevância. Sobra apenas a liderança estatal na mobilização de recursos para avançar a fronteira tecnológica. Nenhum analista sério acredita que políticas de desenvolvimento produtivo (incluindo substituição de importações) continuaram predominantes após as décadas de 80/90 no Brasil. São 4 décadas de ampla dominação da agenda liberal. Mesmo assim, apesar das limitações, esse período coincide com o maior período em que reduzimos a distância pro mundo desenvolvido. No mundo desenvolvido, a ascensão chinesa e de suas políticas de desenvolvimento fizeram a ingenuidade liberal acabar. Precisamos virar logo essa página antes que seja tarde demais para o Brasil.


