Ninguém em sã consciência discute a importância do agronegócio brasileiro. Ele é eficiente, competitivo e responsável por alimentar parte significativa do mundo. Mas o debate essencial é outro: por que, apesar de sua força, o setor agropecuário continua a ser amplamente subsidiado, enquanto outros segmentos produtivos — especialmente a indústria — enfrentam custos elevados, burocracia e carência de políticas de apoio? O verdadeiro desafio está em equilibrar os incentivos para que o país não se torne apenas um grande exportador de commodities agrícolas e um importador de bens manufaturados.
A realidade é que o agro brasileiro, embora robusto, só existe porque há uma ampla base industrial sustentando-o: fábricas de tratores, implementos agrícolas, rações, sistemas de irrigação, silagem, fertilizantes, embalagens, alimentos industrializados, caminhões, caminhonetes, motos, usinas de etanol, estufas, sombrites, tubos e conexões. Todos esses setores fazem parte de um ecossistema produtivo que depende de inovação tecnológica, engenharia e capital humano qualificado — pilares tipicamente industriais. Quando o país desvaloriza sua indústria, enfraquece também a espinha dorsal do próprio agronegócio.
Os números mostram um desequilíbrio gritante. A indústria responde hoje por apenas 12% do PIB brasileiro, mas paga cerca de 30% dos tributos do país. Já o agronegócio, com 7% do PIB, contribui com apenas 5% da carga tributária. Essa distorção fiscal revela não apenas um problema de justiça tributária, mas também uma escolha de prioridades: o Brasil premia quem exporta produtos de baixo valor agregado e penaliza quem tenta inovar, empregar mais e gerar tecnologia dentro de casa.
O resultado dessa estratégia já está visível na balança comercial. Enquanto o agro exibe um superávit de cerca de US$ 150 bilhões, a indústria de transformação acumula um déficit da mesma ordem. Em outras palavras, vendemos soja, milho e carne, mas compramos máquinas, eletrônicos, remédios e semicondutores. Essa dinâmica empobrece o país no longo prazo, pois o valor agregado e os bons empregos estão concentrados justamente nos setores industriais e tecnológicos.
Um projeto nacional de desenvolvimento precisa entender que o agro e a indústria não são adversários, mas aliados. O agronegócio precisa da indústria para continuar se modernizando, e a indústria precisa do agro como mercado e como parceiro na criação de novas tecnologias sustentáveis. O futuro do Brasil depende de integrar esses dois mundos — valorizando a produção de conhecimento, inovação e tecnologia que multiplica o valor daquilo que a terra nos dá.

