*escrito por Luís Felipe Giesteira
Há uma forte correlação entre o grau de complexidade dos produtos que um país produz e exporta e o nível de sofisticação tecnológica desses mesmos produtos. Essa complexidade é usualmente medida por dois indicadores centrais da literatura de complexidade econômica: o Economic Complexity Index (ECI), que se refere ao nível de complexidade da economia como um todo, e o Product Complexity Index (PCI), que mede o grau de complexidade de cada produto individual. Em paralelo, a sofisticação tecnológica costuma ser captada por indicadores como investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) ou em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). A correlação entre essas duas dimensões sugere uma interface crucial entre política industrial e política de CT&I, indicando que ambas precisam caminhar juntas para alterar de forma duradoura a estrutura produtiva — e, no caso brasileiro, para ajudar a sair do prolongado atoleiro de baixo dinamismo econômico que se arrasta há cerca de 40 anos.
O ECI mede a complexidade econômica de um país a partir de dois elementos fundamentais: a diversidade de produtos que ele exporta de forma competitiva e a ubiquidade desses produtos, isto é, o número de países capazes de exportá-los. Economias complexas são aquelas que exportam muitos produtos diferentes e, ao mesmo tempo, produtos que poucos outros países conseguem produzir. Um ECI elevado indica que o país detém um conjunto amplo e sofisticado de capacidades produtivas — conhecimentos, habilidades, tecnologias, instituições e redes de fornecedores — difíceis de serem reproduzidas rapidamente por outros países. Já o PCI mede a complexidade de cada produto individualmente: produtos com PCI alto exigem grande volume de conhecimento tácito, engenharia, coordenação organizacional e infraestrutura tecnológica; produtos com PCI baixo, em geral commodities, exigem capacidades mais simples e amplamente disponíveis.
Países que exportam bens de maior intensidade tecnológica tendem, portanto, a apresentar ECI elevado, geralmente acima de 1. Esses países têm maior probabilidade de crescer de forma sustentada, gerar empregos mais qualificados e melhor remunerados e alcançar uma distribuição de renda mais equilibrada do que países semelhantes em outros aspectos, como renda per capita ou dotação de recursos naturais. A complexidade econômica funciona, assim, como um indicador sintético do potencial de desenvolvimento de longo prazo.
O caso brasileiro é particularmente ilustrativo das tensões entre avanços parciais e resultados estruturais insatisfatórios. O Brasil avançou de forma significativa em diversos indicadores que constituem a base do sistema de inovação. Na educação, houve expansão do ensino superior e da pós-graduação; na produção científica, o país ocupa hoje a 12ª posição global, respondendo por cerca de 2,5% da produção científica mundial; e no esforço tecnológico, o gasto em P&D alcança aproximadamente 1,3% do PIB — um percentual elevado quando comparado a países de renda semelhante, mais que o dobro da média desse grupo.
Apesar desses avanços, o desempenho brasileiro em patentes é fraco e, mais grave ainda, o país regrediu na produção e exportação de bens de maior intensidade tecnológica. Trata-se de uma regressão clara na estrutura produtiva, incompatível com o avanço observado na base científica e educacional. Isso revela a fragilidade dos mecanismos de transformação do conhecimento científico em inovação produtiva e a desconexão entre política de CT&I e política industrial.
Esse resultado é particularmente negativo porque produtos de maior intensidade tecnológica tendem a ser mais lucrativos no longo prazo, apresentam maior elasticidade-renda da demanda e permitem maior captura de valor nas cadeias produtivas globais. Além disso, sem esse tipo de produção, não se forma a sinergia típica de economias baseadas no conhecimento. Nessas economias, a oferta de ciência e tecnologia é um insumo fundamental para as empresas, que operam em setores intensivos em conhecimento, ao mesmo tempo em que a pressão competitiva exige mais inovação, estimulando trabalhadores a se qualificarem e empresas a investirem continuamente em aprendizado.
De acordo com dados do Observatório da Complexidade Econômica referentes a 2020, o Brasil apresentava um ECI de 0,44, posicionando-se como o 47º país mais complexo do mundo — posição significativamente inferior à já alcançada no passado, quando o país ocupava o 21º lugar. Atualmente, o Brasil responde por cerca de 1,22% das exportações mundiais, mas, diferentemente do padrão observado nos anos 1980, essa participação se concentra majoritariamente em commodities, cujo PCI é geralmente negativo, refletindo baixo conteúdo tecnológico e reduzida complexidade produtiva.
Nos segmentos em que a produção é mais “difícil”, exigindo elevado esforço tecnológico, coordenação industrial e capacidade inovativa das empresas, a situação é oposta: a participação brasileira é muito baixa. Os dados mostram que, nos principais capítulos do Sistema Harmonizado que concentram produtos de média-alta e alta intensidade tecnológica, o desempenho do país é bastante inferior à sua fatia total no comércio mundial. Equipamentos elétricos e eletrônicos representam apenas 0,12% do mercado mundial; veículos e partes, 0,58%; maquinário industrial, 0,42%; fármacos, 0,19%; instrumentos de precisão, 0,11%. Apenas nos segmentos aeroespacial (1,58%) e de armas e munições (3,76%) a participação brasileira supera ou se aproxima de sua média geral.
Como se observa, em praticamente todos os setores de maior intensidade tecnológica, a presença brasileira é desproporcionalmente pequena, com poucas exceções. Justamente por isso, o relativo sucesso nesses setores excepcionais pode oferecer pistas importantes para uma futura estratégia de desenvolvimento. Eles sugerem que, quando há coordenação entre política industrial, política de CT&I, financiamento de longo prazo, compras públicas e instituições tecnológicas, o país é capaz de construir capacidades complexas. A pergunta central que permanece é: o que existe nesses setores que não existe nos demais — e por que essa lógica não foi generalizada para o restante da economia?
| Equipamento elétrico e eletrônico | 0,12% |
| Veículos e partes | 0,58% |
| Maquinário industrial | 0,42% |
| Fármacos | 0,19% |
| Aeroespacial | 1,58% |
| Instrumemtos de precisão | 0,11% |
| Armas e munições | 3,76% |
Como se pode observar, em praticamente todos os capítulos, a participação do Brasil é muito menor que sua fatia total nas exportações mundiais (1,22%), com apenas duas exceções. Possivelmente o sucesso nesses setores excepcionais seja um valioso guia quando, quiçá em um futuro não muito distante voltemos a pensar em combinar política de CT&I com política industrial. O que há neles que não há nos demais?

