O livro “How China Escaped Shock Therapy: The Market Reform Debate”, de Isabella M. Weber analisa como a China evitou a estratégia neoliberal radical aplicada em outros países comunistas após o fim da Guerra Fria:
1. O dilema das reformas pós-maoístas
O livro começa explicando o dilema enfrentado pela China no final da década de 1970 e início dos anos 1980: como transitar de uma economia centralmente planejada para uma mais orientada ao mercado sem provocar colapsos sociais e econômicos. O país precisava aumentar a produtividade, resolver escassezes e reduzir a rigidez do sistema, mas sem repetir o colapso que anos depois seria visto na União Soviética e na Europa Oriental.
2. A disputa entre gradualistas e reformistas radicais
Weber descreve o intenso debate entre duas correntes de pensamento dentro do Partido Comunista Chinês: os gradualistas, que defendiam reformas progressivas com manutenção do controle estatal sobre setores estratégicos, e os radicais liberais, que queriam romper rapidamente com o planejamento, liberalizar preços e privatizar empresas. Essa disputa intelectual foi profundamente influenciada por economistas chineses e estrangeiros, especialmente os que participavam do projeto de reforma institucional liderado por Zhao Ziyang.
3. A importância da dualidade de preços
Um ponto central do livro é a explicação sobre como a China evitou a terapia de choque ao manter um sistema de “preços duplos”. Ou seja, parte da produção era vendida a preços fixados pelo Estado, e parte era liberada para o mercado. Esse arranjo permitiu aos reformadores testar o funcionamento do mercado sem desmantelar de imediato as estruturas de segurança econômica e abastecimento, algo que evitou inflação descontrolada e o colapso da produção.
4. Lições do colapso soviético e da Europa Oriental
Weber analisa como os líderes chineses acompanharam de perto o que aconteceu na União Soviética e no Leste Europeu com as reformas de choque – como a de Yegor Gaidar na Rússia. A desorganização institucional, hiperinflação e desindustrialização ocorridas nesses países serviram como lição negativa para os chineses, reforçando a opção por uma reforma sequenciada, pragmática e experimentalista (ou “cruzando o rio sentindo as pedras”).
5. A construção de mercados a partir do Estado
Outro ponto importante é a crítica ao mito de que os mercados surgem espontaneamente. Weber mostra que a China construiu mercados com forte presença estatal, moldando as condições para a competição e canalizando investimentos por meio de bancos públicos, zonas econômicas especiais e empresas estatais reformadas. O Estado não foi apenas um regulador passivo, mas um arquiteto ativo do novo sistema econômico.
6. O legado e a atualidade da escolha chinesa
O livro conclui com a ideia de que a China conseguiu escapar da terapia de choque não por sorte, mas por escolha consciente e disputa política interna. Esse modelo híbrido, onde coexistem empresas estatais e mercados dinâmicos sob orientação estatal, moldou o crescimento chinês nas décadas seguintes. Weber sugere que esse caminho oferece lições importantes para países em desenvolvimento hoje, especialmente sobre a importância de não subestimar o papel das instituições, da coordenação pública e da política industrial.
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