O caminho seguido pelos países nórdicos representa uma opção interessante para o Brasil e países latino-americanos. Ao invés de simplesmente continuar extraindo recursos naturais, madeira, pesca e petróleo, os países nórdicos foram capazes de dar saltos no sentido de sofisticação produtiva relacionados a essas commodities. A indústria de caminhões da Suécia, a indústria moveleira também na Suécia e Finlândia, as plataformas de exploração de petróleo e navios produzidos na Noruega e Dinamarca. O maquinário ligado à produção de móveis, mecânica e engenharia de navios, prospecção e extração de petróleo e assim por diante. Os países nórdicos foram capazes de progredir no domínio tecnológico relacionado a commodities; primeiro no processamento das mesmas, em madeira com MDFs por exemplo, e depois sendo capazes inclusive de produzir o maquinário necessário para processar e extrair commodities. A Dinamarca, por exemplo, produz hoje os maiores navios do mundo. A Suécia está junto com Finlândia e Dinamarca sempre nas posições principais dos rankings de complexidade. Aqui aparece mais um segredo dos nórdicos, o domínio da complexidade econômica, mesmo em meio à abundância de recursos naturais. As pautas de exportação abaixo de Noruega, Finlândia e Dinamarca mostram essa interessante combinação entre recursos naturais brutos e bens complexos ligados à commodities.
Os países nórdicos seguiram um caminho que desafia a chamada maldição dos recursos naturais, demonstrando que a abundância de commodities pode ser um motor para o desenvolvimento econômico sofisticado, em vez de um entrave ao crescimento. Esse modelo apresenta um caminho alternativo para o Brasil e outros países latino-americanos, que tradicionalmente dependem da exportação de produtos primários sem alto valor agregado. O segredo dos nórdicos está na combinação entre recursos naturais e uma estratégia de industrialização e inovação tecnológica.
- O Modelo Nórdico de Desenvolvimento Produtivo
Os países nórdicos – Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia – não apenas extraem e exportam seus recursos naturais, mas também investem pesadamente em pesquisa, desenvolvimento e na agregação de valor aos produtos derivados dessas commodities. Eles criaram indústrias sofisticadas baseadas em seus recursos, desenvolvendo expertise tecnológica e, mais importante, fabricando o maquinário necessário para processar e explorar esses bens. Esse modelo permitiu que suas economias se tornassem altamente complexas e diversificadas.
Indústrias Baseadas em Recursos Naturais
• Suécia: A indústria moveleira (IKEA) e de caminhões (Volvo, Scania) são exemplos de como o país usa sua base de recursos naturais (madeira, metais) para criar produtos finais altamente sofisticados. Além disso, a Suécia se tornou uma potência em engenharia mecânica, produzindo equipamentos para mineração e florestamento.
• Noruega: Em vez de se tornar apenas um exportador de petróleo, a Noruega desenvolveu uma indústria de engenharia naval e plataformas offshore altamente avançada. Empresas como a Aker Solutions fornecem tecnologia para exploração e prospecção de petróleo no mundo todo.
• Dinamarca: Tornou-se referência global na construção naval, produzindo alguns dos maiores navios do mundo, e investiu na indústria eólica, utilizando seu conhecimento em engenharia marítima para fabricar turbinas de alto desempenho.
• Finlândia: Além da indústria moveleira, a Finlândia desenvolveu um setor de maquinário avançado, como equipamentos para a produção de papel e celulose (Valmet) e sistemas de automação industrial.
Papel da Complexidade Econômica
Os países nórdicos ocupam posições de destaque no Economic Complexity Index (ECI), que mede o grau de sofisticação e diversificação produtiva de um país. Isso ocorre porque eles não apenas exportam commodities, mas também desenvolvem indústrias de bens de capital e tecnologia sofisticada, tornando-se menos vulneráveis às oscilações dos preços das matérias-primas.
- Aplicações para o Brasil e a América Latina
O Brasil e outros países latino-americanos têm economias fortemente baseadas na exportação de produtos primários como soja, minério de ferro, petróleo e carne bovina. No entanto, diferentemente dos nórdicos, essas economias ainda não desenvolveram plenamente indústrias sofisticadas ligadas a esses setores. O Brasil poderia seguir um caminho semelhante ao dos países nórdicos por meio das seguintes estratégias:
a) Industrialização e Agregação de Valor às Commodities
• O Brasil exporta grandes volumes de soja in natura, mas poderia investir mais na produção de derivados de maior valor agregado, como proteínas vegetais para o mercado de alimentos processados e bioplásticos.
• No setor mineral, o país exporta minério de ferro, mas poderia expandir sua indústria siderúrgica para produzir ligas metálicas avançadas e produtos finais como peças para a indústria automotiva e aeronáutica.
b) Desenvolvimento de Tecnologia Própria
• Assim como os nórdicos desenvolveram máquinas para extração e beneficiamento de seus recursos, o Brasil poderia investir no desenvolvimento de maquinário agrícola de ponta, equipamentos para exploração de petróleo e tecnologias para mineração sustentável.
• Empresas como a WEG (motores elétricos) já são exemplos de que o Brasil pode desenvolver uma indústria de bens de capital sofisticada.
c) Integração entre Setores e Inovação
• Criar polos tecnológicos voltados para setores estratégicos, como biotecnologia aplicada ao agronegócio, engenharia avançada para exploração mineral e indústria de materiais sustentáveis derivados da floresta amazônica.
• Investir na capacitação de mão de obra e pesquisa acadêmica alinhada às necessidades industriais, conectando universidades e centros de pesquisa às demandas do setor produtivo.
- Conclusão
Os países nórdicos demonstraram que é possível construir economias sofisticadas mesmo partindo de uma base de recursos naturais. O segredo está em agregar valor às commodities, desenvolver tecnologia própria e investir na diversificação industrial. O Brasil tem potencial para seguir um caminho semelhante, desde que haja um esforço estratégico para romper com a dependência de exportações primárias e avançar na complexidade econômica.




Friedrich List foi um visionário e continua inspirador.
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