O choque de juros chegou na economia

O banco central do Brasil levou a Selic para 13,75% no ano passado. O FED americano continua subindo sua taxa de juros básica até 5% ao ano. Em geral as altas de juros demoram entre 3 e 6 meses para chegar na economia real. É o tempo do custo de crédito encarecer, dos  financiamentos imobiliários ficarem mais caros, dos juros de cartão de crédito e capital de giro subirem. Essa alta generalizada de taxas de juros afeta as decisões de consumo das famílias e de investimento das empresas. Essa conta chegou para Brasil e Estados Unidos. Em novembro passado o setor de varejo brasileiro apresentou queda, bem como o IBC-Br, indicador do BC que procura antecipar o PIB. O setor de serviços medido pela pesquisa PMS do IBGE também ficou estagnado. São números que destoam da tendência observada até a metade do ano passada ainda embalados pela reabertura econômica. Nos EUA os dados de varejo e indústria apresentaram queda no mês de dezembro quando comparados a novembro. A venda de casas despencou 33% em Dezembro na comparação com mesmo mês do ano anterior. As taxas de juros de hipotecas subiram de 3% ao ano para mais de 6%. Algo parecido ocorreu no Brasil onde o custo do crédito imobiliário saiu de 7% ao ano em 2021 para quase 10% hoje. Existe uma grande discussão no momento sobre o tamanho da desaceleração que veremos nos EUA e Brasil. Por aqui o mercado espera ainda um crescimento entre 0,5% e 1% para 2023. Por lá o temor de recessão e queda do PIB durante dois trimestres consecutivos é maior. A parada do mercado imobiliário é mais brusca, por outro lado o desemprego segue ainda baixo em menos de 4% da população economicamente ativa.

Preços ao produtor nos EUA (PPI) tiveram queda de 0,5% em Dezembro, trazendo a primeira deflação no atacado relevante desde a crise do Covid. Há quedas importantes nos preços de gasolina, carros usados, materiais de construção e alugueis. A desinflação americana já é uma realidade. Preços ao consumidor nos EUA (CPI) caíram 0,1% em Dezembro comparados a Novembro, abaixo do esperado pelo mercado. A última leitura havia sido de 0,1%. O CPI core, ou medida de núcleo, também veio abaixo do que se imaginava. Em comparação anual a inflação cheia sobe 6,5% em termos anuais. Esses indicadores reforçam o movimento de desaceleração de alta de juros do FED nas próximas reuniões. As dúvidas agora dizem respeito a velocidade de queda e ao prazo de convergência da inflação para a meta de 2% ao ano. O cenário base do mercado financeiro mundial não é de crise na Europa e nos EUA. As bolsas estão voltando a patamares elevados com S&P acima de 4.000. A curva de juros americana projeta forte queda de juros no segundo semestre de 2023, mas as taxas não caem muito abaixo de 2,5%, considerado o juro nominal neutro dos EUA; numa crise o BC teria que levar essa taxa a zero. Outro indicador de relativa calmaria no mercado americano são os spreads de crédito mais arriscado. Esses prêmios continuam abaixo da média histórica e bem abaixo dos picos observados em recessões. Temos portanto um cenário de queda de preços benigna, ou nos termos do mercado, uma desinflação imaculada que não causará grandes efeitos colaterais na economia americana e mundial. Assim esperamos. Mas uma crise nunca pode ser descartada num cenário como o atual. Por ora as economias arrefecem e a inflação cede no Brasil e no mundo sem maiores estragos.

 

Ideias gerais

1)BCs do mundo todo subiram juros em 2022 para controlar a inflação

2) Em geral as altas de juros demoram entre 3 e 6 meses para chegar na economia real.

3) Essa conta chegou para Brasil e Estados Unidos; são economias que estão parando

4)Apesar disso o cenário base do mercado financeiro mundial não é de crise na Europa e nos EUA. As bolsas estão voltando a patamares elevados com S&P acima de 4.000.

5)Temos portanto um cenário de queda de preços benigna, uma desinflação imaculada que não causará grandes efeitos colaterais na economia americana e mundial

2 thoughts on “O choque de juros chegou na economia”

  1. Paulo, o que explica a taxa de juros brasileira? É realmente necessário pagar-se tanto para segurar o preço da nossa moeda? Visto que há um medo dela desvalorizar e aumentar a inflação (é real isso?)

    Esses dias eu ouvi de um alemão que o pessoal toma emprestimo no Japão e vem comprar os títulos aqui. Eles ganham facilmente 10%. Este disse também que o país deveria enfraquecer a moeda e não valoriza-la.

    Qual sua opinião?
    Obrigado!

Deixe uma resposta