A decisão de Richard Nixon de congelar salários e preços em agosto de 1971 foi a resposta dramática a um problema que vinha se acumulando desde meados dos anos 1960: a aceleração da inflação nos Estados Unidos em plena Guerra do Vietnã. A combinação de gastos militares elevados, programas sociais ambiciosos da “Great Society” de Lyndon Johnson e política monetária leniente levou a economia americana a operar próxima do pleno emprego durante vários anos, com pressões crescentes de custos e demanda. A inflação, que era inferior a 2% em 1965, ultrapassou 6% no final da década, sem que houvesse uma recessão clara que a contivesse.
Ao mesmo tempo, esse ambiente inflacionário corroía a credibilidade do regime de Bretton Woods, em que o dólar era conversível em ouro a US$ 35 a onça. Com inflação interna mais alta que a de outros países avançados, os EUA perdiam competitividade, acumulavam déficits externos e viam seus parceiros exigir conversão de dólares em ouro, pressionando as reservas americanas. Em 1970, a inflação anual já rondava 6% e o Congresso aprovou o Economic Stabilization Act, dando ao presidente poder para controlar preços, salários e outras variáveis econômicas em tempos de inflação acelerada, mesmo em paz.
Foi nesse contexto que, em 15 de agosto de 1971, Nixon anunciou pela televisão um pacote batizado de “New Economic Policy”, que ficaria conhecido como Nixon Shock. Entre as medidas, estavam três pilares: (1) o fechamento da “janela do ouro”, suspendendo a conversibilidade do dólar em ouro e na prática desmontando Bretton Woods; (2) um imposto adicional de 10% sobre importações; e (3) um congelamento de 90 dias de todos os salários, preços e aluguéis nos EUA, amparado pelo Economic Stabilization Act. Era a primeira vez desde a Guerra da Coreia que o governo americano recorria a controles abrangentes de preços e salários em tempo de paz.
Esse congelamento de 90 dias, conhecido como Fase I, foi seguido por um regime mais complexo de controles — as Fases II, III e IV — administrado por conselhos específicos (Cost of Living Council, Price Commission, Pay Board) que passaram a autorizar reajustes dentro de certos parâmetros. A ideia era ganhar “tempo político”: segurar a inflação sem provocar uma alta drástica dos juros ou uma recessão às vésperas da eleição de 1972. Do ponto de vista imediato, a estratégia funcionou politicamente: a inflação desacelerou temporariamente, o público teve a sensação de que o governo estava “enfrentando os especuladores” e Nixon foi reeleito em goleada em 1972.
Do ponto de vista econômico, porém, a história foi menos favorável. Os controles não atacavam a raiz do problema — o excesso de demanda alimentado por políticas fiscal e monetária expansionistas associadas à Guerra do Vietnã e aos programas domésticos. Ao segurar preços e salários administrativamente, geraram distorções: escassez de bens, filas, desequilíbrios entre setores, repressão de margens e atraso de reajustes. Quando os controles começaram a ser relaxados, em 1973–74, os preços “correram atrás do prejuízo”, ao mesmo tempo em que o choque do petróleo agravava o quadro, abrindo caminho para a Grande Inflação de dois dígitos da segunda metade dos anos 1970.
Assim, o congelamento de preços de Nixon em 1971 sintetiza bem o dilema de uma economia em guerra e em transição: um Estado que gastava como se estivesse em economia de guerra (Vietnã + Great Society), mas relutava em usar instrumentos impopulares de ajuste – juros mais altos, cortes de gastos, aumento de impostos. O recurso ao controle direto de preços e salários foi uma tentativa de “quadrar o círculo”: manter crescimento e emprego elevados, financiar a guerra e programas sociais, e ainda assim controlar a inflação. Funcionou por um curto período, mas ao custo de empurrar o problema para frente e ampliar a volatilidade inflacionária da década de 1970, que acabaria sendo enfrentada apenas com a política monetária dura de Paul Volcker no final da década.
Acabou meio “derretendo” em câmera lenta, e mal.
Depois daquele congelamento duro de 90 dias em 1971 (Fase I), o governo passou para esquemas cada vez mais flexíveis de controle – Fase II, III e IV – tentando permitir alguns reajustes de salários e preços, mas sempre com amarras e burocracia. Conforme o tempo passava, as distorções iam se acumulando: setores com custos subindo não podiam reajustar, surgiam faltas pontuais, reclamações empresariais e pressão política de todos os lados.
A partir de 1973, com o primeiro choque do petróleo e a alta brutal do preço do barril, a situação ficou insustentável: custo de energia explodindo, inflação represada, guerra do Vietnã chegando ao fim, e o sistema de controles já bastante desgastado. Na prática, os controles foram sendo esvaziados, cheios de exceções e brechas, até que acabaram revogados no governo seguinte.
Em 1974, Nixon renuncia por causa de Watergate; Gerald Ford assume e, em vez de insistir em congelamentos, adota outro tipo de abordagem (o famoso slogan “Whip Inflation Now”, WIN), muito mais baseada em apelos morais, ajustes graduais e, depois, políticas macroeconômicas mais convencionais. Nos anos seguintes, a inflação não só não desaparece como piora: entra nos dois dígitos e se combina com baixo crescimento – a “estagflação” típica da década de 1970.
Ou seja: aquele congelamento de 1971 termina, na prática, como um experimento fracassado. Politicamente rendeu dividendos para Nixon no curto prazo; economicamente, só adiou e amplificou o problema. A inflação americana só vai ser realmente derrubada quase dez anos depois, no início dos anos 1980, com a política monetária duríssima de Paul Volcker no Fed – juros altíssimos, recessão pesada e aí, sim, controle sustentável da inflação.


