O Brasil vive hoje um desequilíbrio externo que revela um problema estrutural profundo: a falta de complexidade tecnológica da sua economia. O déficit em conta-corrente gira em torno de 3,5% do PIB, patamar já preocupante para um país emergente, e reflete um descompasso entre o que o país exporta e o que importa. Embora a balança comercial total siga positiva — com superávit esperado de cerca de US$ 60 bilhões — o saldo é sustentado basicamente por commodities como petróleo, minério de ferro, soja e produtos do agronegócio.
Por trás desses números, há um contraste gritante: o déficit da balança industrial ultrapassa US$ 100 bilhões, revelando a fragilidade do setor manufatureiro. Em outras palavras, o Brasil exporta bens simples e importa bens complexos. Nosso superávit em commodities financia o déficit de produtos industrializados, especialmente nas áreas de alta tecnologia, como eletrônicos, máquinas e químicos. Este último setor é emblemático: a dependência de insumos, patentes e processos produtivos estrangeiros faz com que o país pague caro por licenças, royalties e remessas de lucros — uma drenagem contínua de valor para fora do território nacional.
Essa dinâmica evidencia o que poderíamos chamar de “déficit de complexidade”. O Brasil não produz tecnologia de ponta em escala suficiente e depende de ativos intangíveis estrangeiros para funcionar. Quando empresas multinacionais operam no país, elas trazem conhecimento e tecnologia — mas também levam de volta os ganhos de propriedade intelectual. O resultado é um círculo vicioso em que a renda gerada internamente escoa para remunerar a inovação feita lá fora.
O abandono da política industrial nos últimos anos agravou esse quadro. Enquanto potências como Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul e China reforçaram suas estratégias de desenvolvimento tecnológico e reindustrialização, o Brasil desmontou instrumentos de fomento, perdeu capacidade de coordenação estatal e negligenciou o investimento em pesquisa e inovação. A consequência é uma base produtiva cada vez mais primarizada, dependente da sorte dos ciclos de commodities e incapaz de sustentar um crescimento robusto e contínuo.
Os economistas chamam essa armadilha de Lei de Thirlwall, que mostra como o crescimento de longo prazo de um país é limitado por sua capacidade de exportar produtos complexos e financiar suas importações. Em outras palavras, sem avanço tecnológico local, o crescimento brasileiro vai bater no teto do balanço de pagamentos. Romper essa barreira exige reconstruir uma estratégia nacional de desenvolvimento, com política industrial moderna, investimento em ciência e tecnologia e fortalecimento das cadeias produtivas sofisticadas. É isso, e não apenas juros ou câmbio, que vai determinar se o Brasil seguirá dependente de commodities — ou se finalmente ingressará no grupo das nações que produzem e exportam conhecimento.


