O Desafio do Brasil: Criar Novas Atividades de Alto Valor Adicionado

Desenvolvimento Econômico: Produtividade, Valor Adicionado e o Desafio da Diversificação

Quando falamos em desenvolvimento econômico, estamos nos referindo a um processo que vai além do simples crescimento do PIB. O cerne do desenvolvimento está no aumento da produtividade e do valor adicionado das atividades realizadas por uma economia ou território. Isso pode ocorrer de duas formas complementares:

Melhorando atividades já existentes, ou seja, tornando setores tradicionais mais eficientes, inovadores e integrados a cadeias de valor mais sofisticadas. Criando novas atividades, que exigem aprendizado, investimento em capacidades produtivas inéditas e, sobretudo, inserção em trajetórias tecnológicas mais complexas.

É nessa segunda dimensão que reside o maior desafio. Modernizar a agricultura ou tornar a indústria de transformação mais competitiva é importante, mas o verdadeiro salto de desenvolvimento ocorre quando países conseguem abrir espaço para novas atividades de alto valor agregado. Isso implica diversificação produtiva, construção de novas competências tecnológicas e capacidade de gerar externalidades positivas para outros setores.

O economista Dani Rodrik tem enfatizado exatamente esse ponto. Para ele, o desenvolvimento não pode ser entendido apenas como a “média” da produtividade da economia, mas como um movimento de alocação de recursos para atividades de maior produtividade e, simultaneamente, de criação de novos setores capazes de sustentar ganhos contínuos de aprendizado. Isso significa que o desenvolvimento é, em grande medida, um problema de transformação estrutural.

No caso dos países emergentes — e particularmente do Brasil —, esse desafio é duplo. Por um lado, é necessário aumentar a produtividade dentro de setores já consolidados, como o agronegócio, a mineração ou a própria indústria tradicional. Por outro, é urgente criar atividades em áreas mais intensivas em conhecimento e tecnologia, capazes de sustentar o futuro: energias renováveis, química verde, economia digital, semicondutores, biotecnologia, inteligência artificial, entre outras.

Esse processo, porém, não acontece de forma espontânea. Ele exige políticas industriais, tecnológicas e de inovação orientadas por missão, além de uma estratégia de Estado que articule investimentos públicos, incentivos privados e sistemas de aprendizagem. Sem esse esforço coordenado, o risco é permanecer preso em atividades de baixo valor adicionado e baixa produtividade, gerando o que Rodrik chama de “armadilha do desenvolvimento”.

Portanto, pensar em desenvolvimento econômico hoje é pensar em como ampliar a fronteira produtiva de um país, combinando eficiência nos setores já existentes com ousadia na criação de novos setores. É uma escalada de complexidade e de aprendizado, na qual o Brasil ainda precisa encontrar o equilíbrio entre aproveitar suas vantagens naturais e dar passos firmes rumo a atividades de maior sofisticação tecnológica.


Exemplos Internacionais de Subida na Escada da Produtividade

1. Coreia do Sul: da cópia à inovação

Nos anos 1960, a Coreia do Sul tinha uma economia rural e de baixa renda, muito semelhante à de países africanos e latino-americanos da época. A estratégia do Estado coreano foi clara: entrar em setores industriais de maior valor agregado, mesmo que no início fosse apenas montando produtos desenvolvidos fora. As empresas coreanas — apoiadas por crédito subsidiado, proteção temporária e metas de exportação — começaram com bens simples (têxteis, calçados), depois migraram para automóveis, aço e eletrônicos, até se tornarem líderes em semicondutores e tecnologia digital. Hoje, Samsung, Hyundai e LG são símbolos de como um país pode criar atividades de ponta em poucas décadas.

2. Taiwan: a aposta em semicondutores

Taiwan construiu seu salto em torno de uma política deliberada de construção de capacidades tecnológicas. O governo criou o Instituto de Pesquisa em Tecnologia Industrial (ITRI) nos anos 1970, que foi o berço da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC). O Estado não apenas investiu em pesquisa, mas também articulou parcerias internacionais para transferência de tecnologia. O resultado é que Taiwan se tornou o epicentro global da indústria de chips, um setor de altíssimo valor adicionado e fundamental para a economia digital.

3. China: escala e diversificação

A China, desde as reformas de Deng Xiaoping, buscou atrair investimento estrangeiro, mas sempre com a condição de aprendizado e transferência de tecnologia. Empresas estrangeiras tinham de se associar a firmas locais, o que permitiu a criação de capacidades internas. O país saiu da montagem de produtos de baixo custo para se tornar líder em energia renovável, veículos elétricos, telecomunicações e inteligência artificial. A lógica foi clara: aproveitar a escala para internalizar conhecimento e criar novos setores de ponta.

O contraste com o Brasil

O Brasil, por sua vez, conseguiu historicamente criar atividades industriais importantes, como no setor automobilístico, de aeronáutica (Embraer) e de energia (Petrobras, Embraer, Eletrobras). No entanto, o país tem tido mais dificuldade em manter a escalada rumo a setores de maior sofisticação tecnológica. Muitas vezes, as novas atividades ficam restritas ao agronegócio e à mineração, setores em que o país é altamente competitivo, mas com desafios para agregar valor.

O grande desafio brasileiro, portanto, é diversificar sua estrutura produtiva, incentivando setores como:

Química verde e biotecnologia, aproveitando a biodiversidade; Energia renovável e transição ecológica, usando sua liderança em etanol, biomassa e potencial solar/eólico; Economia digital e inteligência artificial, com startups e hubs de inovação em cidades como São Paulo e Florianópolis; Defesa e aeroespacial, expandindo a experiência da Embraer para outras frentes tecnológicas.

Conclusão: a escada da aprendizagem

Os casos de Coreia, Taiwan e China mostram que o desenvolvimento é um processo ativo de construção de novas atividades, e não um destino natural. Todos esses países apostaram em aprendizado produtivo, política industrial estratégica e coordenação entre Estado e setor privado. O Brasil, para não ficar preso na “armadilha da renda média”, precisa fazer o mesmo: melhorar atividades já existentes e, sobretudo, criar novas, mais complexas e intensivas em tecnologia, capazes de puxar toda a economia para patamares mais altos de produtividade e valor adicionado.

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