*desenvolvido a partir de ideias de Otaviano Canuto
O conceito de “privilégio exorbitante” do dólar foi cunhado pelo ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing para descrever a vantagem única que os Estados Unidos possuem devido ao papel do dólar como principal moeda de reserva internacional. Esse privilégio permite que os EUA financiem seus déficits em conta corrente emitindo dívida na própria moeda, diferentemente de outros países que precisam obter divisas estrangeiras para cobrir seus déficits externos. Como resultado, os EUA podem consumir e investir acima do seu produto potencial, pois há uma demanda constante por ativos denominados em dólar – como títulos do Tesouro americano – por parte de governos, bancos centrais e investidores globais.
Esse arranjo também dá aos EUA grande influência sobre a economia mundial, pois lhes permite imprimir dinheiro sem gerar uma crise cambial e utilizar sanções financeiras como ferramenta de política externa. No entanto, o privilégio exorbitante não vem sem riscos: o financiamento contínuo dos déficits pode levar ao endividamento excessivo e à inflação, além de criar um desequilíbrio estrutural na economia global. Além disso, outros países podem buscar alternativas ao dólar caso sintam que o sistema os coloca em posição de vulnerabilidade – como é o caso da China e da União Europeia, que tentam fortalecer suas moedas e reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais.
A discussão sobre o déficit em conta corrente dos EUA e o “privilégio exorbitante” do dólar envolve um dilema fundamental: como equilibrar a posição da moeda americana como principal reserva internacional e, ao mesmo tempo, reduzir déficits comerciais e impulsionar a produção industrial doméstica. O status do dólar exige uma oferta constante de ativos financeiros americanos para o mundo, o que se reflete em déficits em conta corrente estruturais. Esse arranjo permite que os EUA consumam e invistam acima do seu produto potencial, pois há uma demanda global permanente por dólares e Treasuries.
Os defensores de um mercantilismo industrial, como os economistas alinhados ao trumpismo (Navarro, Lutnick e Lighthizer), veem esse déficit como um problema para o setor manufatureiro e não como um benefício financeiro estratégico. O objetivo deles seria reduzir o déficit comercial e desvalorizar o dólar sem comprometer sua posição global. No entanto, essa abordagem ignora que a posição do dólar como reserva implica necessariamente déficits recorrentes. Para tentar resolver essa contradição, há a possibilidade de que se proponham medidas como forçar detentores estrangeiros de Treasuries a trocar seus títulos por versões de 100 anos, usando tarifas e gastos militares como instrumentos de barganha. No entanto, essa estratégia não encontra respaldo no atual cenário geopolítico e financeiro, já que a estrutura da economia global não é mais a dos anos 1980 e a China não aceitaria tal imposição.
Se os EUA insistirem nessa estratégia mercantilista sem modificar o papel do dólar, um possível efeito colateral pode ser a substituição gradual do dólar como reserva dominante. Essa mudança não favoreceria diretamente o yuan chinês ou o ouro, mas poderia impulsionar o euro, especialmente com o aumento da oferta de títulos públicos europeus, impulsionados pelas novas políticas fiscais e militares da Alemanha e da UE. Esse dilema não é exclusivo dos EUA: a China enfrenta uma dificuldade semelhante, pois seu modelo mercantilista esbarra na falta de conversibilidade plena do yuan. No caso americano, a tentativa de minimizar a transmissão da política econômica para as taxas de juros domésticas pode acabar acelerando um processo que enfraquece a posição privilegiada do dólar no sistema global.
O mercantilismo trumpista é uma abordagem econômica que busca promover políticas de protecionismo e intervencionismo estatal para reduzir os déficits comerciais e aumentar a produção interna de manufaturados. Sob a liderança de Donald Trump, os Estados Unidos adotaram uma estratégia focada em tarifas comerciais e na renegociação de acordos internacionais, como o NAFTA (renomeado como USMCA), com o objetivo de deslocar as cadeias produtivas globais de volta para os EUA. A ideia central desse modelo é que a redução das importações e o incentivo à produção local aumentariam o emprego e o crescimento econômico, especialmente nos setores industriais que haviam sido enfraquecidos pela globalização e pela migração de fábricas para outros países, como a China.
Mar-a-Lago Accord e a Estratégia Econômica de Trump
1. Objetivo Central: A equipe econômica de Donald Trump busca redefinir o sistema global de comércio, finanças, tecnologia e poder militar para garantir a supremacia americana a longo prazo. Essa estratégia envolve uma mudança do pensamento neoliberal para um modelo mercantilista e hegemônico, onde o poder econômico e político dos EUA seja fortalecido por meio de medidas protecionistas e acordos estratégicos.
2. O Dilema do Dólar:
• Os EUA querem manter a dominância do dólar como moeda de reserva global, pois isso sustenta sua influência financeira e geopolítica.
• No entanto, reconhecem que a valorização excessiva do dólar prejudica a competitividade da indústria americana, tornando suas exportações mais caras e contribuindo para a desindustrialização.
3. Mar-a-Lago Accord:
• Uma proposta em discussão (não oficializada) para lidar com esse dilema.
• Acordo entre os EUA e outros países para enfraquecer o valor do dólar, tornando os produtos americanos mais competitivos no mercado internacional.
• Em troca, os EUA ofereceriam vantagens como redução de tarifas, proteção militar e alianças estratégicas.
• Poderia envolver a troca de dívida americana de longo prazo por outros tipos de compromissos financeiros.
4. Visão de Poder:
• O plano reflete um pensamento de poder baseado em influência econômica e política, utilizando ameaças, tarifas, sanções e força militar para garantir que os EUA mantenham sua posição dominante.
• Busca reformular o sistema financeiro e comercial global para assegurar vantagens para os EUA no longo prazo.
Conclusão
A estratégia econômica de Trump e sua equipe combina protecionismo, uso agressivo do poder econômico e ajustes no sistema financeiro global para reforçar a posição dos EUA. O Mar-a-Lago Accord, se concretizado, poderia ser uma tentativa de influenciar a economia global por meio da manipulação do dólar e concessões estratégicas para aliados, garantindo vantagens para os EUA em um cenário de crescente competição global, especialmente com a China.

