O Estado empreendedor da China produziu a máquina de chips mais complexa do mundo

No dia 28 de julho, as ações da ASML — a empresa holandesa que se tornou a companhia de tecnologia mais valiosa da Europa — caíram entre 7% e 8%. O gatilho foi curioso: a notícia de que uma estatal chinesa quase desconhecida, a Shanghai Aishengna Electronic Technology Group, começou a produzir em série suas primeiras máquinas domésticas de litografia por imersão no ultravioleta profundo (DUV, na sigla em inglês). Por que uma empresa de US$ 700 bilhões perderia dezenas de bilhões de valor de mercado porque uma firma obscura de Xangai vai fabricar cerca de cinco máquinas neste ano? Porque essas cinco máquinas não são um produto. São um sinal.

O que aconteceu, em números

A escala ajuda a manter os pés no chão. A Aishengna pretende entregar por volta de cinco equipamentos em 2026 e algo como vinte em 2027, para gigantes chinesas como a SMIC, a Hua Hong e a fabricante de memórias CXMT. No mesmo período, a ASML projeta produzir cerca de 130 máquinas de imersão só em 2026, com planos de ampliar a capacidade em 30% em 2027. Ou seja: em unidades, a China parte de pouco mais de 3% da produção da rival holandesa. A própria fonte da reportagem admite que a máquina chinesa ainda precisa de muitos testes e está longe de igualar os modelos da ASML. Vários componentes críticos, aliás, continuam vindo do Japão, e atrasos de fornecedores locais seguraram a produção deste ano.

Vale entender o que está em jogo tecnicamente. As máquinas de litografia projetam os padrões dos circuitos sobre a bolacha de silício — é o passo que decide, na prática, quais chips podem ser fabricados, a que custo e com que rendimento. A litografia por imersão insere uma fina camada de água entre a lente e a bolacha para imprimir traços menores, algo em torno de 28 nanômetros numa única exposição, chegando a nós de 7 nm por meio de múltiplas passagens (o chamado multipatterning), ao custo de mais erros e menor rendimento. O andar de cima — o EUV, ultravioleta extremo, necessário para os chips mais avançados de IA — permanece monopólio absoluto da ASML, fruto de quase duas décadas de pesquisa. E aí o consenso entre analistas é duro: o EUV, hoje, está fora do alcance chinês. É uma tecnologia inteiramente diferente.

Por que litografia é o teste supremo da complexidade

É aqui que a notícia deixa de ser sobre a bolsa e passa a ser sobre economia do desenvolvimento. Uma máquina de litografia de ponta é, com folga, um dos objetos mais complexos já fabricados pela espécie humana. Ela condensa centenas de milhares de capacidades distribuídas em óptica de precisão, ciência de materiais, engenharia mecânica em escala nanométrica, software de controle e uma cadeia de fornecedores que atravessa dezenas de países. Nenhuma empresa, e nenhum país, “sabe” fazer isso sozinho de uma hora para outra.

Essa é exatamente a intuição central da complexidade econômica na tradição de Hidalgo e Hausmann: países produzem aquilo que sabem fazer, e o “saber fazer” é um conhecimento tácito, coletivo e acumulado — difícil de comprar, difícil de transferir, difícil de copiar. Não à toa a aposta de Washington ao impor controles de exportação foi precisamente essa: se você bloqueia o acesso às máquinas e ao serviço técnico, o adversário não consegue simplesmente comprar o caminho até a fronteira tecnológica, porque a fronteira não está à venda. Ela mora nas capacidades, não nos catálogos.

O paradoxo da sanção e o Estado que aprende

Só que há um efeito bumerangue bem documentado na literatura de “interdependência armada” — o uso de nós críticos da rede global (chokepoints) como instrumento de coerção. Os controles de exportação de fato encarecem, atrasam e degradam o rendimento do lado chinês. Mas eles também fazem outra coisa: criam o incentivo e, sobretudo, o mercado doméstico garantido que tornam a substituição de importações economicamente viável. Quando os Estados Unidos discutem no Congresso o MATCH Act — que proibiria não só a venda de máquinas DUV por imersão à China, mas também a manutenção das já instaladas —, Pequim ganha um argumento irrespondível para bancar a alternativa nacional a qualquer custo. A China representava cerca de 20% das vendas da ASML em 2026, contra 33% em 2025; o cerco é real, e a resposta é previsível.

É o roteiro do Estado empreendedor de Mariana Mazzucato quase à risca. Não se trata de um Estado que “corrige falhas de mercado” nas beiradas, mas de um Estado que assume a incerteza radical, define uma missão, coordena firmas, absorve o risco que nenhum ator privado tomaria isoladamente e — o ponto decisivo — cria o mercado. A Aishengna não é uma startup que venceu na concorrência; é um veículo estatal que incorporou equipes de diferentes empresas chinesas de litografia (entre elas a Yuliangsheng, cujo protótipo a SMIC vem testando desde 2025) e concentrou capacidades dispersas num único esforço nacional. A autossuficiência em semicondutores é, hoje, uma das maiores prioridades declaradas de Xi Jinping. Isso não é acidente de percurso; é política industrial de guerra.

O que isso tem a ver com o Brasil

Convém não exagerar: a China não “venceu” a corrida da litografia — ela apenas comprou uma apólice de seguro contra as sanções, num degrau intermediário da escada. O salto para o EUV segue distante, e talvez não venha nunca pelo mesmo caminho. Mas o que me interessa aqui é menos o placar e mais o método.

O episódio é uma aula sobre como um país escala complexidade: escolhendo uma missão de fronteira, mobilizando o Estado como investidor de primeira instância, tolerando o fracasso das primeiras cinco máquinas imperfeitas porque elas são o custo de aprendizado das vinte seguintes, e tratando capacidade tecnológica como questão de soberania, não de conveniência fiscal. A pergunta que faço não é se o Brasil deveria fabricar máquinas de litografia — não deveria, não faz o menor sentido dado o nosso ponto de partida. A pergunta é se somos capazes de reproduzir a lógica: escolher setores em que temos capacidades adjacentes, mobilizar o Estado de forma inteligente e paciente, e aceitar que aprender a fazer coisas novas é caro, lento e cheio de erros no começo.

Escrevi um livro inteiro sobre uma economia que não aprende. A China, com todos os seus defeitos e opacidades, está aqui nos mostrando o contrário: uma economia que erra cinco vezes de propósito para acertar da sexta. É essa disposição — mais do que qualquer máquina específica — que separa os países que sobem na escada da complexidade daqueles que assistem lá de baixo.


Fontes: reportagem da Reuters (28/07/2026), com base em apuração do The Information; Tom’s Hardware; IBTimes; e análises sobre controles de exportação e a cadeia global de litografia.

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