O livro O Estado Empreendedor de Mariana Mazzucato pode ser interpretado como uma fusão das ideias de Keynes, Schumpeter e Marx, visto que incorpora elementos cruciais das teorias econômicas desses três pensadores para sustentar sua argumentação em defesa do papel ativo do Estado no processo de inovação e desenvolvimento econômico.
1. John Maynard Keynes
Mazzucato se alinha a Keynes ao defender que o Estado tem um papel central na estabilização econômica e no estímulo ao crescimento, especialmente em momentos de incerteza ou baixo dinamismo do setor privado. Assim como Keynes defendia políticas fiscais ativas e intervenções do governo para estimular a demanda agregada e combater o desemprego, Mazzucato argumenta que o Estado deve ser um agente ativo e ousado, investindo em áreas de alto risco e fomentando inovações que o setor privado, por sua natureza avessa ao risco, não está disposto a explorar. A ideia de que o Estado pode assumir funções que vão além da correção de falhas de mercado remete diretamente ao keynesianismo, no qual a intervenção governamental é essencial para garantir a sustentabilidade econômica.
2. Joseph Schumpeter
A perspectiva de Mazzucato também se inspira em Schumpeter, particularmente na ideia de que a inovação é a força motriz do crescimento econômico e na importância do “espírito empreendedor” para a dinâmica capitalista. Para Schumpeter, os empreendedores desempenham um papel crucial ao introduzir inovações que revolucionam mercados e criam novos paradigmas econômicos, um processo que ele chamou de “destruição criativa”. Mazzucato expande essa ideia ao argumentar que o Estado pode — e deve — ser visto como um agente empreendedor. Segundo ela, o Estado não deve ser apenas um facilitador, mas sim o principal motor do desenvolvimento tecnológico, financiando e liderando inovações que criam novos setores e mercados. Mazzucato demonstra que muitas das inovações mais importantes, como a internet e as tecnologias verdes, surgiram de investimentos públicos e de políticas governamentais que assumiram os riscos iniciais, agindo, assim, como um “empreendedor coletivo”.
3. Karl Marx
A influência de Marx em O Estado Empreendedor se manifesta na crítica ao capitalismo e à forma como os lucros são privatizados, enquanto os riscos são socializados. Mazzucato questiona a tendência dos governos de subsidiarem as inovações com dinheiro público, permitindo que o setor privado colha os frutos sem compartilhar os retornos com a sociedade. Essa crítica lembra a análise marxista das relações de produção, nas quais o capitalista se apropria do valor excedente gerado pelo trabalho, enquanto os trabalhadores, e neste caso também o Estado, ficam marginalizados. Mazzucato argumenta que o Estado deveria obter uma parcela dos retornos para reinvestir em novas áreas de inovação, garantindo que os benefícios do crescimento sejam distribuídos de forma mais equitativa — uma proposta que reflete uma crítica marxista à distribuição desigual dos ganhos no capitalismo.
Conclusão
O Estado Empreendedor pode ser visto como uma síntese das ideias de Keynes, Schumpeter e Marx, na medida em que Mazzucato advoga por um Estado que vá além da simples regulação de mercados ou da resposta a falhas econômicas. Ela propõe um Estado dinâmico, que cria e molda mercados (Schumpeter), estabiliza e estimula a economia em momentos críticos (Keynes), e garante uma distribuição justa dos ganhos da inovação e do crescimento (Marx). Essa combinação coloca o Estado no centro da narrativa do desenvolvimento econômico, não como um coadjuvante, mas como um protagonista indispensável e empreendedor.

